A PODRIDÃO CALICINAR POR Neonectria ditissima
A podridão calicinar das maçãs por Neonectria se constatou no Brasil já no início da introdução da doença em pomares das regiões produtoras que apresentavam alta incidência de cancro europeu da macieira causada por Neonectria ditíssim, (Sinn. N. galligena).

No Brasil – nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – o cancro europeu das pomáceas está presente desde 2010. O patógeno é Praga quarentenária A1 Presente e sob controle do Ministério de Agricultura (MAPA) no país.
O patógeno está estabelecido nos pomares de toda área de produção, sendo que, após cada chuva os esporos do fungo podem infectar os ferimentos produzidos pelo homem, como a poda e os tratos culturais para condução e suporte das plantas. Também ocorre nos ferimentos naturais como cicatriz deixada na planta pela queda das folhas e pela retirada do pedúnculo dos frutos na colheita, ou ainda pela abertura do extremo calicinar das maçãs.
Tratos culturais e uso de fungicidas adequados são obrigatórios, estes devem ser registrados nos cadernos de campo. Os pomares estão sujeitos a inspeções regulares do MAPA. Esses processos são descritos na IN 20.
Estratégias de controle químico visam proteger as diferentes partes da planta:
- Pulverizações das macieiras em pós-colheita para proteger os restos dos pedúnculos e diminuir o inóculo do patógeno;
- Pulverização das macieiras durante o período da queda das folhas para evitar a infecção das cicatrizes da queda das folhas e as gemas axilares. Esses tratamentos diminuem o desenvolvimento de cancros nos ramos novos e esporões, que forneceriam de inóculo para infecções na primavera;
- Pulverizações no período da floração até frutos de 10 mm para diminuir as infecções no extremo calicinar das maçãs e controlar o inóculo do patógeno.
Os fungicidas recomendados para o controle do patógeno durante a pós-colheita no pomar são: cúpricos em doses baixas pelo risco de fitotoxicidade na macieira, protetores sintéticos, entre eles Captana e Ditianona; Fosethil Al; Fosfito de potássio, Tebuconazol e Benzimidazóis. Este último grupo é o único que tem mostrado ação curativa, mas deve se confirmar que a população é sensível a esse princípio ativo.
Durante o início do ciclo vegetativo, o uso do cobre fica restrito ao início da brotação. Todos os outros antes citados podem ser usados, além de produtos eficientes para outras doenças da macieira que também possam ter controle de Neonectria, sendo dos grupos das Estrobilurinas, Carboxamidas e DMI entre outros.
A resistência a fungicidas não é frequentemente citada em outros países, mas já foi relatada resistência aos Benzimidazóis. O fungicida citado como padrão é Captana pela sua eficiência no controle do patógeno na cultura.
Descrição e controle da podridão calicinar por Neonectria
Esse tipo de doença nas maçãs sempre está presente nas regiões de produção onde há cancro de ramos por Neonectria. Ela assumiu importância a partir da década de 2000 na Europa e é conhecida na literatura como ‘blossom-end rot’, ‘calyx-end rot’ ou ‘dry-eye rot’. Os pesquisadores comentam que essa tenha sido subestimada porque a fruta com a podridão cai ao chão, são eliminadas no raleio e/ou deixadas no campo. Os primeiros relatos de podridão calicinar por N. galligena ocorreram em dois locais na Inglaterra na cv ‘Worcester Pearmain’. Também tem sido encontrado esse sintoma em muitas outras cultivares e locais da Europa.
No último ciclo (2024/25), se constatou aumento de sintomas dessa podridão na região do cálice dos frutos, tanto na colheita, quanto após a armazenagem no Sul do Brasil. Contudo, já no início da introdução da doença no RS, já se constatava perda de frutos pelas infecções na primavera. A infecção ocorre no extremo calicinar do fruto, pela abertura calicinar ou estômatos e, raramente, pelas lenticelas. É importante lembrar que nos frutinhos recém formados se desenvolvem estômatos e mais tarde podem ocorrer as lenticelas. A invasão dos restos florais no extremo do cálice pode ser outra via de infecção. Na Europa, foi demostrado que a suscetibilidade dos frutos a N. ditissima é alta do início do crescimento dos frutos até 30 a 40 dias após a floração. Ela diminui e aumenta novamente próximo à colheita. A severidade da doença depende em grande parte da presença de inóculo no pomar. Somente 10 a 100 esporos são necessários para iniciar uma lesão. Portanto, se o produtor deixar no pomar só um ramo com cancro, ele irá gerar 45.000 ascósporos com capacidade para infectar 450 maçãs.
Pode haver variação na incidência dos sintomas de podridão calicinar nos ciclos dependendo da via de infecção, da quantidade de inóculo presente e das condições meteorológicas no pomar. Adicionalmente, essa variação dependerá também do formato do extremo calicinar, o qual pode mudar com as condições climáticas, fisiologia das macieiras ou com o uso de alguns reguladores de crescimento.
Quando a podridão se desenvolve nas maçãs, no local colonizado se desenvolvem massas esbranquiçadas de conídios de Cylindrocarpon mali (Allesch.) Wr. Alguns frutos podem mumificar, nos quais podem se formar peritécios durante o inverno. Após a colonização do patógeno, a área próxima apresenta cor avermelhado e o tecido afetado é superficial, da cor marrom a preta. Visto que os frutinhos infectados estão em crescimento ativo – com a detenção do crescimento da cutícula na área colonizada pelo patógeno – ocorre um descompasso entre o seu crescimento e o da parte interna das maçãs, propiciando rachaduras na epiderme.
As características da cutícula das maçãs têm um papel fundamental no favorecimento ou não das rachaduras nas maçãs. A cutícula e as ceras epicuticulares são barreiras entre organismos vivos como os vegetais e o meio ambiente. Esta camada atua, entre outras coisas, na proteção contra a perda excessiva de água. No estudo da presença de microfissuras na camada de ceras epicuticulares das maçãs, os pesquisadores notaram diferenças entre cultivares. Eles determinaram que as cultivares suscetíveis a podridão têm no geral cutícula mais fina (ex Gala, Fuji, Golden Delicious e Pink Lady). Além disso, a cv Gala desenvolve com frequência rachaduras nos extremos do pedúnculo e/ou do cálice, porque ela apresenta diferente taxa de crescimento entre a cutícula e a polpa.
As condições do ambiente que aumentam os riscos de rachaduras são chuvas após um período prolongado de seca ou chuva seguida de um período com alta temperatura. Calor e seca durante a divisão celular aumentaram rachaduras que podem ser visíveis somente na colheita. Portanto, na ocorrência de condições para ocorrência desse distúrbio, qualquer patógeno que esteja disponível no pomar poderá colonizar rachaduras naturais ou as provocadas pela infecção precoce dos frutinhos por Neonectria.
Nos Estados Unidos, são citadas podridões calicinares por Botryosphaeria, Colletotrichum e Neofabraea. Eles podem infectar através de cálices abertos, nas flores pelas lenticelas ou pequenas rachaduras na epiderme dos frutinhos.
Levantamentos realizados pela Proterra em 6 pomares do RS e um de Fraiburgo-SC de dezembro a janeiro no ciclo 2024/25, determinaram que os principais patógenos em todos os locais foram Colletotrichum sp. e Neonectria, com presença também de Botryosphaeria e de Neofabraea, sendo a proporção desses gêneros variáveis conforme o pomar.
AVALIAÇÃO DE PRINCÍPIOS ATIVOS NO CONTROLE DE Neonectria ditissima EM MAÇÃS
O trabalho teve objetivo de verificar produtos eficazes para proteger as maçãs das infecções por N. ditíssima. Foram selecionados ingredientes ativos com potencial para controle do patógeno, os quais foram avaliados em uma dose sob condições de laboratório (Ttabela 1).
Tabela 1. Fungicidas para avaliação em maçãs inoculadas com Neonectria ditissima (3,5 x 106) isolado de um pomar comercial de Vacaria em 2025.
Maçãs ‘Galaxy’ com 2 ferimentos de 2×2 mm na região equatorial foram imersas por 3 minutos em cada tratamento. Após 18h, as maçãs foram inoculadas com a suspensão de conídios e incubadas a 20ºC por 21 dias. Avaliaram-se a incidência (porcentagem dos ferimentos com podridão) e severidade (tamanho em milímetros) das podridões.
Os resultados do controle da incidência e da severidade foram agrupados por grupo de fungicidas, conforme as Figuras 2 e 3.



CONSIDERAÇÕES
As condições deste experimento foram com alta pressão da doença e avaliada apenas uma dose de cada produto. As condições de campo podem interferir no controle do patógeno pelo fungicida. Assim, é necessário validar os resultados no campo.
Rosa Maria Valdebenito Sanhueza
Vinícius Bartnicki
Manuella Leal







