03 fev

Potencial de armazenamento de novas cultivares de maçãs com maior cobertura de cor vermelha em atmosfera controlada e atmosfera controlada dinâmica

 

O setor produtivo de maçãs está em contínua renovação, buscando incrementos de produtividade, sustentabilidade na produção e oferta de frutos de qualidade ao consumidor. Nesse quesito, a intensa cobertura de cor vermelha da epiderme é uma característica de grande relevância, porém deve estar relacionado com outros atributos, como a crocância e sabor, além dos aspectos fitossanitários da planta/fruta no campo. Como a colheita da maçã é concentrada em um curto período do ano, outro aspecto bem importante destas novas cultivares é tolerar longos períodos de armazenamento, mantendo a qualidade. Dentre as novas cultivares de maçãs com maior cor vermelha da epiderme, está a ‘Gala Fult’, uma cultivar Uruguaia obtida de mutação somática da ‘Royal Gala’. Com características similares em relação à coloração da epiderme, temos também a cultivar ‘Lady Gala’, ambas maçãs do grupo Gala.

Como a produção dessas cultivares ainda é incipiente, não há informações em relação ao seu potencial de armazenamento. Assim, foi realizado um experimento no ano de 2025 no Núcleo de Pesquisa em Pós-colheita (NPP), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde foram avaliadas duas estratégias de armazenamento para as maçãs cultivares Gala Fult, Lady Gala (LG-1 e LG-2) obtidas de dois pomares e a tradicional Maxi Gala. A colheita foi realizada no dia 08 de fevereiro e as maçãs foram colocadas em minicâmaras de atmosfera controlada (AC) de 230 L, inseridas em câmaras maiores onde a temperatura foi controlada, permanecendo em 2 ºC. Utilizou-se duas condições de armazenamento, estabelecidas no interior das minicâmaras onde estavam os frutos: [1] AC, com pressão parcial de 1,2 kPa O2 + 2,0 kPa CO2 e [2] atmosfera controlada dinâmica pelo quociente respiratório de 1,3 (ACD-QR 1,3), com variação do O2 durante o armazenamento (máximo 0,50; mínimo 0,10 e média de 0,17 kPa de O2) + 1,8kPa de CO2. Na ACD, o QR foi determinado duas vezes por semana pela relação entre a produção de CO2 e consumo de O2 pelos frutos em um período de 13 horas. Assim, foi obtido o novo set point de O2 para os próximos três a quatro dias, possibilitando o armazenamento próximo do limite mínimo de O2 tolerado pelos frutos.

Após nove meses, as minicâmaras foram abertas e as maçãs permaneceram mais sete dias a 20 ºC, quando então foram avaliadas quanto aos aspectos de qualidade, cujos resultados são apresentados na figura 1. A produção de etileno foi menor em todas as cultivares quando armazenadas em ACD-QR comparado com AC, exceto para LG-2, que não diferiu entre as condições de armazenamento. Essa maçã estava com maturação mais avançada na colheita (Tabela 1), o que pode ter resultado em baixa produção de etileno após o armazenamento (sobremadura). Na comparação das cultivares a Gala Fult produziu mais etileno, independentemente da condição (Figura 1A). Para a firmeza de polpa, apesar da pouca diferença, resultados da análise estatística mostram que a ACD-QR foi mais eficiente na manutenção dessa característica que a AC. Maçãs Lady Gala (ambos pomares) apresentaram maio firmeza, enquanto a Maxi Gala resultou em menor firmeza (Figura 1B).

 

Tabela 1. Ponto de maturação das diferentes cultivares de maçãs utilizadas no trabalho.

Foram avaliados também os distúrbios internos dos frutos. A polpa farinácea foi menor com armazenamento em ACD-QR em maçãs ‘Lady Gala’ e ‘Maxi Gala’. Para essas cultivares esse distúrbio foi constatado em > 25% dos frutos quando armazenados em AC. Porém, para maçãs ‘Gala Fult’ a polpa farinácea foi maior em ACD-QR comparada à AC (Figura 1C). Para essa mesma cultivar também se observa a mesma tendência para degenerescência de polpa (escurecimento interno), que afetou 15% dos frutos em ACD-QR, enquanto em AC não houve a presença do distúrbio. Esses resultados sugerem que essa cultivar provavelmente tenha maior suscetibilidade ao baixo O2 do que as demais. A degenerescência foi baixa para as demais cultivares, sem diferença entre as condições de armazenamento (Figura 1D).

Na avaliação da podridão, não houve diferença significativa entre as condições AC x ACD-QR. A podridão ficou < 5% de frutos após prolongado período de armazenamento, mais sete dias de vida de prateleira para as cultivares Gala Fult e LG-1. Na LG-2 a podridão foi maior que em LG-1, provavelmente em função da maior maturação na colheita (Tabela 1). A maior porcentagem de podridões foi observada na cultivar Maxi Gala, porém sem diferir da LG-2 (Figura 1E).

De uma forma geral, apesar da maturação mais avançada na colheita e prolongado período de armazenamento, observa-se um bom potencial de armazenamento das novas cultivares com maior cobertura de cor vermelha, onde o ponto de maturação na colheita é um fator determinante para a manutenção da qualidade durante o armazenamento. Para a maioria das cultivares, a adoção de O2 extremamente baixo, em ACD-QR, apresenta efeito positivo na qualidade, porém para a cultivar Gala Fult, necessita-se de mais estudos para avaliar a suscetibilidade dos frutos ao baixo O2.

Figura 1. Qualidade de diferentes cultivares de maçãs após nove meses de armazenamento a 2 ºC, em AC ou ACD, seguido de 7 dias de vida de prateleira (20 ºC). Médias seguidas pela mesma letra minúscula não diferem entre si para as diferentes cultivares e médias seguidas pela mesma letra maiúscula não diferem entre as condições de armazenamento (AC x ACD) para a mesma cultivar. Lady Gala (1) e (2) são provenientes de pomares diferentes (1 e 2).

 

Autores:

Prof. Dr. Vanderlei Both (Departamento de Fitotecnia; Universidade Federal de Santa Maria)

Prof. Dr. Auri Brackmann (Departamento de Fitotecnia; Universidade Federal de Santa Maria)

MSc. Carine Borges Batista (aluna do PPG Agronomia; Universidade Federal de Santa Maria)

Enga. Agra. Rafaela Gasparetto Polli (aluna do PPG Agronomia; Universidade Federal de Santa Maria)

Eng. Agr. Lucas Gabriel Silva Barroso (aluno do PPG Agronomia; Universidade Federal de Santa Maria)

MSc. Laís de Paula Ribeiro (aluna do PPG Agronomia; Universidade Federal de Santa Maria)

 

 

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