Uso de abelhas sem ferrão na polinização da Macieira: Potencial, desafios e perspectivas para a fruticultura

A produção de maçãs depende de um fator muitas vezes invisível aos olhos do consumidor, mas decisivo dentro do pomar: a polinização. Sem a transferência eficiente de pólen entre cultivares compatíveis, a frutificação pode ser comprometida, reduzindo pegamento dos frutos, número de sementes, calibre e uniformidade dos frutos. Tradicionalmente, a principal espécie manejada para esse serviço é a abelha africanizada Apis mellifera. Entretanto, estudos realizados no Brasil e no exterior vêm demonstrando que as abelhas nativas sem ferrão podem desempenhar papel complementar e em alguns casos estratégico na melhoria da polinização da macieira.

A dependência da cultura em relação aos insetos polinizadores é bem conhecida. A maioria das cultivares comerciais apresenta autoincompatibilidade gametofítica, tornando a polinização cruzada essencial para o pegamento adequado dos frutos (Ramírez & Davenport, 2013). Além disso, frutos oriundos de flores bem polinizadas tendem a apresentar maior número de sementes, melhor formato e maior valor comercial na fase de pós-colheita, na realização da classificação em categorias nos Packing House’s.

Em experimento conduzido na Estação experimental de Fruticultura de Clima Temperado da Embrapa Uva e Vinho em Vacaria, RS, em 2016, Santos, Bizotto e Sattler avaliaram a abelha nativa Mandaçaia (Melipona quadrifasciata), espécie conhecida por seu comportamento dócil, facilidade de manejo e boa adaptação à sistemas agrícolas.

No experimento, os autores observaram que ramos com gaiolas sem a presença de colméias de M. quadrifasciata não formaram frutos, comprovando a eficiência da espécie em transferir grãos de pólen entre cultivares compatíveis de macieiras. Segundo o estudo, a espécie apresentou atividade de visitação floral compatível com as exigências da cultura da macieira, tocando as anteras em busca de recursos e permanecendo por mais de 30 segundos em uma única flor, demonstrando potencial para atuar como agente polinizador complementar em pomares comerciais.

Em outro experimento, Viana et al. (2014) observaram que a introdução de colméias de Melipona quadrifasciata juntamente com as de A. mellifera incrementou o número de sementes por fruto e a produção de frutos de macieira. Isso pode estar relacionado ao fato de que como a abelha mandaçaia Melipona quadrifasciata apresenta maior atividade externa, em horários de temperaturas mais baixas e de umidades relativas altas, diferentes aos apresentados por A. mellifera em macieira, pode haver menor competição entres as espécies pelo recurso floral, o que pode permitir ganhos na polinização de macieiras.

Os autores concluíram que a presença de Melipona quadrifasciata “pode melhorar o desempenho da abelha africanizada como polinizadora de flores de macieira”, demonstrando um efeito positivo da diversidade de polinizadores sobre a produtividade.

Ainda na década de 1990, pesquisadores Sueli Ortolan e Sebastião Laroca, em estudo conduzido em Lages, Santa Catarina, avaliaram a fauna de abelhas em áreas produtoras de maçã e realizaram experimentos específicos com a abelha mirim Plebeia emerina. O trabalho demonstrou a capacidade da espécie em visitar flores de macieira e efetuar polinização, sugerindo seu uso como agente complementar em pomares do Sul do Brasil. A pesquisa ganha relevância especial porque P. emerina apresenta rusticidade e tolerância a temperaturas mais baixas, características desejáveis para as condições de florescimento da macieira na região sul.

Esse fenômeno já havia sido sugerido em outros estudos internacionais. A presença simultânea de diferentes espécies de abelhas pode modificar o comportamento de forrageamento, aumentando o deslocamento entre linhas e entre cultivares polinizadoras, favorecendo a transferência de pólen compatível e reduzindo déficits de polinização.

As abelhas sem ferrão visitam aproximadamente 90 culturas agrícolas em regiões tropicais e subtropicais, sendo consideradas importantes ferramentas para sistemas produtivos sustentáveis, especialmente em ambientes onde a disponibilidade de polinizadores convencionais pode ser limitada.

Para a fruticultura brasileira especialmente nos polos produtores do Rio Grande do Sul e Santa Catarina esses resultados abrem novas perspectivas. O uso planejado de abelhas nativas pode representar não apenas aumento de produtividade e qualidade de frutos, mas também maior resiliência dos pomares frente às oscilações climáticas, perdas de colmeias comerciais e crescente demanda por sistemas agrícolas ambientalmente responsáveis.

Mais do que uma alternativa, as abelhas sem ferrão começam a se consolidar como uma tecnologia biológica promissora para a produção de maçãs. E, ao que tudo indica, o futuro da polinização poderá depender não apenas de uma espécie, mas da convivência equilibrada entre polinizadores manejados e a rica biodiversidade brasileira.

 

Referências

 

ORTOLAN, S. M. L.; LAROCA, S. Melissocenótica em área de cultivo de macieira com experimento de polinização com Plebeia emerina, 1996.

 

RAMÍREZ, F.; DAVENPORT, T. Apple pollination: A review. Scientia Horticulturae, 2013.

 

SANTOS, R. S. S.; BIZOTTO, L. A.; SATTLER, A. Avaliação do serviço de polinização da abelha mandaçaia Melipona quadrifasciata quadrifasciata em macieiras. XXIV Congresso Brasileiro de Fruticultura, 2016.

 

VIANA, B. F. et al. Stingless bees further improve apple pollination and production. Journal of Pollination Ecology, 2014.

 

 

 

Leonardo Oliboni do Amaral, Eng.°Agr°. Emater, Escritório Municipal de Vacaria/RS.

Marcos Gilberto de Abreu Scopel, Tecnólogo em Fruticultura. Emater, Escritório Municipal de Vacaria/RS.

 

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