INFLUÊNCIA DA FERTIRRIGAÇÃO NO CRESCIMENTO INICIAL DE MACIEIRAS CONDUZIDAS EM SISTEMA BIDIMENSIONAL SOB DOIS PORTA-ENXERTOS

RESUMO

A fertirrigação tem se destacado como estratégia eficiente para melhorar o crescimento e o desempenho produtivo de macieiras. Este estudo avaliou seu efeito no crescimento inicial de plantas enxertadas sobre M.9 e G.213, em sistema bidimensional, em Vacaria/RS, nas safras 2021/22 e 2023/24, comparando fertirrigação e cultivo em sequeiro. Foram analisadas variáveis como diâmetro do tronco, área de seção transversal e área estrutural das plantas, com uso de análise de imagem. Os resultados mostraram que a fertirrigação aumentou significativamente o vigor vegetativo, a estrutura da copa e o potencial produtivo. O porta-enxerto G.213 destacou-se, especialmente com ‘Fuji Suprema’. Conclui-se que a fertirrigação é uma prática eficiente para o desenvolvimento inicial e aumento da produtividade de pomares em Vacaria/RS.

 

Palavras-chave: fertirrigação; porta-enxertos; condução bidimensional; crescimento vegetativo.

 

INTRODUÇÃO

 

Para alcançar alta produtividade na cultura da maçã, é fundamental adotar técnicas adequadas de manejo, como a escolha correta do porta-enxerto, que influencia diretamente o porte das plantas. Entre os porta-enxertos mais recentes, destacam-se os da série CG, que apresentam controle de vigor, alta precocidade, resistência a doenças e pragas de solo, ausência de rebrotes e elevado potencial produtivo, resultando em frutos de qualidade (Martin et al., 2022). No Sul do Brasil, o uso de porta-enxertos evoluiu desde a década de 1970, predominando atualmente combinações como ‘Marubakaido’ com interenxerto ‘M.9’, além do uso isolado de ‘M.9’ e ‘Marubakaido’ (Denardi; Hawerroth; Kvitschal, 2020).

Nos últimos anos, a região dos Campos de Cima da Serra tem enfrentado veranicos e irregularidade na distribuição de chuvas (Jungles et al., 2024). Esses déficits hídricos, especialmente durante a brotação e o crescimento vegetativo, reduzem o vigor das plantas, atrasam o estabelecimento dos pomares e podem comprometer a produtividade futura.

Diante desse cenário, torna-se essencial a adoção de tecnologias que aumentem a eficiência no uso da água e dos fertilizantes. A fertirrigação, por permitir a aplicação simultânea de água e nutrientes diretamente na zona radicular, apresenta-se como uma alternativa promissora (Nachtigall, 2018).

Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar o efeito da fertirrigação no crescimento de macieiras sob dois porta-enxertos (M.9 e G.213), em sistema de condução bidimensional, no município de Vacaria, Rio Grande do Sul, Brasil.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

 

O experimento foi conduzido nas safras 2021/22 e 2023/24, em pomar comercial implantado em 2019, em Vacaria/RS, com as cultivares ‘Maxi Gala’ e ‘Fuji Suprema’ enxertadas sobre M.9 e G.213, em sistema bidimensional. O delineamento foi inteiramente casualizado, com 20 repetições e dois tratamentos: sequeiro (adubação convencional) e fertirrigação.

O monitoramento hídrico foi realizado com tensiômetros em diferentes profundidades, com leituras diárias de setembro a março, acionando a irrigação por gotejamento quando a tensão do solo ultrapassava 10 kPa. A fertirrigação foi ajustada conforme as exigências nutricionais da cultura.

Durante o repouso hibernal, avaliou-se a área estrutural das plantas por meio de imagens processadas no software ImageJ, a partir de fotografias padronizadas e uso de escala de referência.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Os resultados obtidos nas safras 2021/22 e 2023/24 evidenciam, de forma consistente, o impacto positivo da fertirrigação no crescimento vegetativo de macieiras (Quadros 1 e 2). O diâmetro do tronco, a área de seção transversal do tronco e a área estrutural das plantas foram significativamente superior nas plantas submetidas à fertirrigação, em comparação ao manejo convencional em sequeiro.

O diâmetro do tronco, além de indicar diretamente o vigor das plantas, reflete a atividade do câmbio vascular e o acúmulo de tecidos condutores ao longo do tempo. O incremento dessas variáveis nos tratamentos com fertirrigação confirma a importância do fornecimento contínuo de água e nutrientes, especialmente durante fases de crescimento ativo, como nas primaveras frias e secas típicas dos Campos de Cima da Serra.

A área de seção transversal do tronco está diretamente relacionada à capacidade da planta de transportar água, nutrientes e fotoassimilados. Esse parâmetro é amplamente utilizado em estimativas de área foliar e na definição de práticas de poda, sendo sensível ao manejo adotado. Os maiores valores observados sob fertirrigação indicam um sistema estrutural mais robusto, apto a sustentar copas mais desenvolvidas e produtivas.

A análise da área estrutural das plantas revelou um padrão claro: a fertirrigação promoveu maior expansão da copa, tanto em volume quanto na distribuição dos ramos. Esse efeito favorece a interceptação de luz, essencial à fotossíntese, e contribui para a formação de estruturas reprodutivas nas safras subsequentes. Em sistemas de condução bidimensional, esse aspecto é ainda mais relevante, pois depende de uma distribuição equilibrada da copa ao longo do plano de cultivo.

A resposta diferenciada entre os porta-enxertos também merece destaque. O M9, de menor vigor e sistema radicular superficial, demonstrou maior dependência de manejo hídrico intensivo. Já o G213, com vigor moderado e sistema radicular mais eficiente, apresentou bom desempenho sob fertirrigação, especialmente quando associado a cv. ‘Fuji Suprema’, evidenciando seu potencial para sistemas de alta densidade com irrigação controlada.

Estudos como o de Nachtigall (2019) corroboram esses resultados, indicando que a fertirrigação em pomares de macieira influencia não apenas o crescimento vegetativo, mas também a produtividade futura, o equilíbrio entre crescimento vegetativo e reprodutivo e a longevidade do pomar.

Outro aspecto relevante é a consistência dos resultados entre os dois ciclos agrícolas. A manutenção do padrão de resposta positiva à fertirrigação sugere efeitos não apenas imediatos, mas também cumulativos, reforçando a importância de estratégias de manejo contínuas.

Dessa forma, os dados evidenciam que a fertirrigação constitui uma ferramenta estratégica para aumentar o vigor, melhorar o desenvolvimento estrutural e ampliar o potencial produtivo de pomares de macieira em regiões com restrições hídricas e clima temperado úmido, como os Campos de Cima da Serra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Os resultados das safras 2021/22 e 2023/24 demonstraram que a fertirrigação promove maior crescimento vegetativo em macieiras conduzidas em sistema bidimensional, com aumento no diâmetro do tronco, na área de seção transversal e no desenvolvimento estrutural das plantas, em comparação ao cultivo em sequeiro. Esse manejo favorece o vigor, a condução de água e nutrientes e a formação de copas mais eficientes na interceptação de luz.

Entre os porta-enxertos, o G213 apresentou desempenho superior, especialmente com a cultivar ‘Fuji Suprema’, evidenciando maior eficiência na absorção de recursos e melhor desenvolvimento em relação ao M.9, que se mostrou mais dependente de condições hídricas controladas.

A consistência dos resultados nos dois ciclos reforça a fertirrigação como prática estratégica para aumentar o vigor, equilibrar o desenvolvimento e potencializar a produtividade de pomares, sobretudo em regiões com limitações hídricas.

 

REFERÊNCIAS

 

DENARDI, F.; HAWERROTH, M. C.; KVITSCHAL, M. V. Desempenho agronômico de porta-enxertos de macieira da série japonesa JM no meio oeste catarinense. Agropecuária Catarinense, 33(2), 48–53. 2020. https://doi.org/10.52945/rac.v33i2.757. Disponível em: https://publicacoes.epagri.sc.gov.br/RAC/article/view/757. Acesso em: 22 abr. 2026.

 

JUNGES, A. H.; et al. Climatologia das horas de frio e relação com cultivo de frutíferas de clima temperado na Serra Gaúcha. Agrometeoros, v. 32, 2024. Disponível em: https://apct.sede.embrapa.br/agrometeoros/article/view/27706. Acesso em: 22 abr. 2026.

 

MARTIN, M. S. de; et al. Produtividade e calibre de frutos de porta-enxertos da série Geneva® em macieiras ‘Gala Select’. v. 3 n. 1, FRUSUL – Simpósio de Fruticultura da Região Sul – ISSN 2526-9909, 2022. Disponível em: https://portaleventos.uffs.edu.br/index.php/FRUSUL/article/view/16470. Acesso em: 22 abr. 2026.

 

NACHTIGALL, G. R.; et al. Irrigação e fertirrigação em pomares de macieira nas condições do sul do Brasil. 13 Seminário Nacional sobre Fruticultura de Clima Temperado, p. 49, 2018. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/handle/doc/1098019. Acesso em: 22 abr. 2026.

 

NACHTIGALL, G. R.; GOULARTE, A. A. N. Irrigação e fertirrigação para melhorar a produtividade e a qualidade dos pomares de macieira no sul do brasil. Agapomi. 304a Edição, 2019. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1114495/1/Nachtigall.GAGAPOMI304p.672019.pdf. Acesso em: 22 abr. 2026.

 

 

Karen Rodrigues Vieira

Engenheira Agrônoma; Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) com convênio com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS); E-mail: rodrigueskaren93@gmail.com;

 

Eléia Righi

Doutora, Professora adjunta da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Pós-doutora no Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto – UFRGS; E-mail: eleia-righi@uergs.edu.br; Orcid: 0000-0002-2766-8719;

 

Fabiana Lazzerini da Fonseca

Professora, Doutora na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) – Unidade Universitária em Vacaria; E-mail: fabiana-barros@uergs.edu.br;

 

Gilmar Ribeiro Nachtigall

Doutor, Pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa Uva e Vinho; E-mail: gilmar.nachtigall@embrapa.br;

 

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