A safra de maçã 2025/2026 chegou cheia e de qualidade alta, mas trouxe junto um velho dilema do produtor: oferta abundante derruba o preço médio. No maior mercado atacadista do país, o Entreposto Terminal de São Paulo (ETSP) da CEAGESP, os números deste ano contam essa história e, ao mesmo tempo, apontam onde está a saída. Vale começar pelo retrato de quem produz e de onde vem a fruta.
Quando se olha de onde vem e o que é essa maçã, o protagonismo do Sul fica explícito. Praticamente toda a maçã nacional que chega ao ETSP parte de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul: em 2025, cerca de 65% da fruta de origem nacional veio de SC e aproximadamente 26% do RS, com São Paulo e Paraná completando o quadro. A oferta se concentra nos polos serranos. São Joaquim (SC), Vacaria (RS) e Fraiburgo (SC) respondem, juntos, por mais de 70% da maçã nacional do entreposto, com Vacaria figurando como a segunda praça de origem, atrás apenas de São Joaquim. No perfil de variedades, duas cultivares dominam: a Gala responde por cerca de 52% da maçã nacional comercializada e a Fuji por 41%, cabendo à Eva e a outras cultivares o restante. E há um dado que interessa diretamente ao produtor gaúcho: a participação do Rio Grande do Sul é bem maior na Gala (cerca de 36% da Gala nacional que passa pelo ETSP é gaúcha) do que na Fuji, mais concentrada em Santa Catarina.
No destino dessa produção, a CEAGESP ocupa posição central. O ETSP é o maior mercado atacadista de hortigranjeiros do país e uma das principais referências da rede nacional de centrais de abastecimento. Só em 2025, o ETSP movimentou mais de 3 milhões de toneladas de produtos, em valor superior a R$ 14,5 bilhões. Nesse universo, a maçã tem peso de protagonista: foi o produto de maior volume financeiro de todo o entreposto no ano, com R$ 1,22 bilhão comercializado, à frente de uva, tomate, laranja e batata. Em quantidade, ficou em quarto lugar geral, com 140,2 mil toneladas; entre as frutas, foi a primeira em valor e a segunda em volume, atrás apenas da laranja. Para o produtor gaúcho, o dado mais eloquente está na origem: das 41,4 mil toneladas de maçã Gala recebidas pelo ETSP em 2025, 36,4% vieram do Rio Grande do Sul, atrás apenas de Santa Catarina (61,7%). Ou seja, mais de um terço da Gala que chega ao maior mercado do país é gaúcha.
O ano de 2026 traz um cenário de safra cheia e preços sob pressão. Depois de dois ciclos castigados pelo excesso de chuva e pela falta de frio, a safra 2025/2026 abriu oficialmente em fevereiro, em Vacaria, com a produção nacional estimada entre 1,05 milhão e 1,15 milhão de toneladas, cerca de 20% acima do ciclo anterior e de volta à média histórica. O inverno mais regular favoreceu não só o volume, mas também a qualidade: o setor projeta frutos com tamanho acima da média, excelente coloração, maior suculência e equilíbrio entre açúcar e acidez, com presença mais marcante do pingo de mel. O reverso da fartura apareceu no preço. Com oferta abundante e estoques ainda elevados, as cotações no atacado recuaram com força. Na CEAGESP, a maçã Gala foi cotada a R$ 5,77/kg em maio, o menor preço da série, queda média anual de 32,5%, enquanto a Fuji ficou em R$ 5,75/kg em junho, redução média anual de 25,7%. O Cepea estima que os preços devem seguir baixos pelo menos até agosto, já que os estoques permanecem altos e ainda não recuaram de forma significativa.
Vale um olhar de duas décadas para dimensionar o momento. Em 2005, quando analisamos a comercialização da maçã no Entreposto Terminal de São Paulo, em estudo que apresentei no SENAFRUT de 2006, em São Joaquim (SC), a fruta era quase toda nacional, com a Gala respondendo por cerca de 69% do volume e a Fuji por 31%, e os preços no atacado variavam por origem entre R$ 1,98 e R$ 2,74 o quilo. Vinte anos depois, o cenário mudou em três frentes. O volume cresceu de 77,5 mil para cerca de 140 mil toneladas por ano, a maçã importada da Argentina e do Chile passou a responder por perto de um terço do que chega ao Entreposto e, sobretudo, o preço real recuou. Corrigidos pela inflação, aqueles R$ 1,98 a R$ 2,74 de 2005 equivaleriam hoje a algo entre R$ 6,00 e R$ 8,20 o quilo. Os R$ 5,75 a R$ 5,77 praticados em 2026 estão, portanto, no piso ou abaixo do piso real de duas décadas atrás, mesmo com uma safra cheia e de qualidade superior. A leitura é incômoda, mas instrutiva: produzir mais e melhor não garantiu, por si só, melhor remuneração. O que sustentou preço, em 2005 como em 2026, foi a diferenciação pela qualidade e pela classificação. Já naquele estudo, São Joaquim liderava a Fuji justamente por entregar fruta classificada e confiável, enquanto origens de pós-colheita mais frágil ficavam no piso da tabela.
É justamente nesse ponto que entra a marca do produtor. Num ano de oferta cheia, o preço médio recua para todos, mas a média esconde uma diferença enorme entre a fruta que sai no topo da tabela e a que fica no piso. O que separa uma da outra não é o acaso, e sim o domínio da qualidade e da classificação. A maçã, vale insistir, não é uma commodity: cor, calibre, firmeza, sanidade e regularidade de entrega definem preços distintos para frutos da mesma safra, muitas vezes do mesmo pomar. Diferentemente de boa parte das hortaliças e frutas, a maçã sempre trilhou um caminho próprio de classificação, fruto de um setor fortemente articulado: a Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM) foi pioneira na construção, em articulação direta com o Ministério da Agricultura (MAPA), de normas oficiais específicas para a fruta, na esteira da obrigatoriedade de classificação trazida pela Lei nº 9.972/2000. Esse rigor próprio é, hoje, um ativo. Em 2026, com a safra grande e de qualidade alta e os preços pressionados pela oferta, a classificação, a padronização e a embalagem deixam de ser formalidade e viram estratégia: cada caixa bem classificada, padronizada e rotulada é uma promessa cumprida ao comprador, e é nessa confiança que o produtor gaúcho defende a própria margem. Vinte anos depois de discutirmos isso no Entreposto de São Paulo, a conclusão segue a mesma, agora mais urgente: a qualidade não é custo, é o melhor preço que a fruta pode ter.
Fontes: SEDES/CEAGESP (Caderno de Comercialização e cotações semanais, 2025–2026); SIM/CEAGESP (Sistema de Informação de Mercado); ABPM; Cepea; Almeida & Alves, A Comercialização da Maçã no ETSP da CEAGESP (SENAFRUT, 2006). Valores de 2005 corrigidos pelo IPCA (fator aproximado de 3,0).
Gabriel Vicente Bitencourt de Almeida
Engenheiro Agrônomo, Doutor
Chefe da Seção do Centro de Qualidade Hortigranjeira (CQH) da CEAGESP


