Inseticidas cetoenóis ambimóveis: princípios agronômicos desenvolvidos na videira como base para o posicionamento da tecnologia em frutíferas de clima temperado

Introdução

O manejo de insetos sugadores tem sido um dos principais desafios fitossanitários da viticultura e da fruticultura de clima temperado na Região Sul do Brasil. O aumento da importância de insetos pragas como cochonilhas e pulgões, aliado à necessidade de sistemas de manejo mais seletivos e sustentáveis, reforça a importância do correto posicionamento das novas tecnologias de controle.

Nesse contexto, a recente introdução da espiropidiona no mercado brasileiro, primeiro representante comercial do grupo dos cetoenois ambimóveis no país, amplia as possibilidades de utilização desses inseticidas na viticultura e em outras frutíferas de clima temperado. Entretanto, seu sucesso depende menos das características individuais de cada ingrediente ativo e mais da compreensão dos princípios agronômicos que determinam sua eficiência. Esses princípios foram estabelecidos ao longo de mais de duas décadas de estudos conduzidos principalmente com espirotetramato na cultura da videira, que se consolidou como modelo para o desenvolvimento e o posicionamento agronômico dessa classe de inseticidas.

Os inseticidas cetoenóis pertencem ao Grupo 23 do IRAC e compartilham o mesmo mecanismo de ação, baseado na inibição da enzima acetil-CoA carboxilase (ACCase), responsável pela biossíntese de lipídios. Entretanto, apresentam diferenças importantes quanto às propriedades físico-químicas, ao metabolismo e ao comportamento na planta. Enquanto o espirotetramato e a espiropidiona atuam como pró-inseticidas e são convertidos em metabólitos biologicamente ativos após a absorção foliar, outras moléculas do grupo podem apresentar características distintas. Entre os representantes com comportamento ambimóvel, compartilham-se princípios agronômicos relacionados à absorção foliar, à redistribuição sistêmica e à interação entre a fisiologia da planta, a biologia da praga e a qualidade e o direcionamento da pulverização..

Este artigo reúne esse conhecimento com o objetivo de apresentar os princípios agronômicos que orientam o posicionamento dos inseticidas ambimóveis na viticultura. Embora esses princípios tenham sido desenvolvidos principalmente a partir da experiência acumulada no manejo da espécie invasora Planococcus ficus (Signoret), eles são discutidos tendo a espiropidiona como referência e constituem uma base conceitual para a incorporação de novos inseticidas ambimóveis na fruticultura de clima temperado, à medida que se tornem disponíveis.

Por que os inseticidas cetoenóis ambimóveis representam uma nova tecnologia?

Diferentemente da maioria dos inseticidas utilizados na fruticultura, a eficiência dos inseticidas ambimóveis depende menos do contato direto da pulverização com o inseto e mais da capacidade da molécula de ser absorvida pela planta, redistribuir-se sistemicamente e alcançar os tecidos onde as pragas se alimentam. Assim, a planta deixa de ser apenas o alvo da pulverização e passa a atuar como parte integrante do processo de controle.

A espiropidiona, primeiro representante dessa nova geração de inseticidas ambimóveis disponível para a fruticultura brasileira, ilustra esse novo conceito de manejo. Após a absorção foliar, a molécula é rapidamente convertida em seu metabólito biologicamente ativo, a espiropidiona-enol, que é redistribuído tanto pelo xilema quanto pelo floema, protegendo não apenas os tecidos presentes no momento da aplicação, mas também aqueles formados posteriormente durante o crescimento vegetativo. Embora existam diferenças entre os ingredientes ativos do Grupo 23 quanto às suas propriedades físico-químicas e ao processo de ativação metabólica, a ambimobilidade constitui a principal característica responsável pelo posicionamento agronômico desses inseticidas.

Como consequência, a eficiência dos inseticidas ambimóveis depende de uma sequência de etapas interdependentes: deposição da pulverização → absorção foliar → redistribuição sistêmica → ingestão pelo inseto → efeito biológico. Na espiropidiona, essa sequência inclui ainda a conversão da molécula em seu metabólito biologicamente ativo. Qualquer fator que comprometa uma dessas etapas reduz a eficiência do controle.

Fatores que determinam a eficiência dos inseticidas ambimóveis

A eficiência dos inseticidas ambimóveis resulta da interação entre as propriedades da molécula, a fisiologia da planta, a biologia da praga e a tecnologia de aplicação. A seguir são discutidos os principais fatores que condicionam seu desempenho em campo.

1. Absorção foliar e tecnologia de aplicação

A absorção foliar representa a primeira etapa para o funcionamento dos inseticidas ambimóveis. Embora apresentem elevada sistemicidade, sua eficiência depende inicialmente da deposição do produto sobre a superfície foliar e da quantidade efetivamente absorvida pela planta. Assim, a qualidade da pulverização, a cobertura das folhas, a arquitetura da copa, a densidade foliar e a tecnologia de aplicação são fatores determinantes para o sucesso do tratamento. Nos inseticidas ambimóveis, a eficiência não depende apenas da quantidade de produto aplicada, mas principalmente da fração efetivamente absorvida pela planta. Como a molécula precisa penetrar nos tecidos vegetais, ser convertida em sua forma biologicamente ativa e, somente então, redistribuir-se pelo xilema e floema, estratégias que favoreçam a absorção foliar podem ser mais importantes do que o simples aumento da dose aplicada. Em videira, a adição de óleo vegetal a 0,1% à calda de pulverização aumentou em aproximadamente 25% a eficiência de controle de P. ficus, sem alterar a dose do ingrediente ativo, demonstrando que, nos inseticidas ambimóveis, favorecer a absorção foliar pode ser mais importante para a eficiência do controle do que aumentar a dose do inseticida.

2. Redistribuição sistêmica e estádio fenológico da planta

Após a absorção foliar, a espiropidiona é redistribuída pelo xilema e pelo floema, alcançando folhas, brotações, ramos e também o sistema radicular. Como o transporte pelo floema acompanha o fluxo de fotoassimilados em direção aos órgãos que atuam como drenos metabólicos, essa redistribuição é favorecida durante períodos de crescimento ativo da planta.

Essa característica permite proteger tecidos frequentemente pouco expostos à pulverização direta e constitui uma das principais vantagens da tecnologia. Por esse motivo, a espiropidiona deve ser posicionada preferencialmente durante períodos de intenso crescimento vegetativo e radicular, quando sua redistribuição é maximizada. Entretanto, a movimentação sistêmica da molécula, por si só, não garante elevada eficiência sobre todas as pragas subterrâneas. Estudos conduzidos em videira evidenciaram baixo efeito sobre a pérola-da-terra Eurhizococcus brasiliensis indicando que o sucesso do controle depende também da biologia e suscetibilidade da espécie-alvo.

3. Estádio de desenvolvimento da praga

Os inseticidas cetoenóis ambimóveis atuam por meio da inibição da biossíntese de lipídios, comprometendo processos essenciais ao crescimento, à formação da cutícula e ao desenvolvimento dos insetos. Como consequência, os insetos reduzem rapidamente sua atividade alimentar, diminuindo os danos à planta, embora a mortalidade ocorra de forma gradual. O efeito é mais pronunciado sobre ninfas de primeiro e segundo ínstares e, em espécies como P. ficus, a mortalidade máxima pode ocorrer apenas cerca de 25 dias após a aplicação.

Assim, o sucesso da tecnologia depende da sincronização da aplicação com a fase de maior suscetibilidade da população. Aplicações realizadas no início da infestação, quando predominam ninfas jovens, proporcionam maior eficiência de controle do que aplicações sobre populações constituídas principalmente por ninfas de estádios avançados e adultos.

4. Período residual de controle e manejo da resistência

A redistribuição contínua da molécula para tecidos em crescimento confere à espiropidiona prolongado período residual de controle, permitindo que novos órgãos vegetativos permaneçam protegidos após a aplicação. Entretanto, a duração desse efeito depende da manutenção do crescimento vegetativo e das condições ambientais que favorecem a atividade fisiológica da planta.

No caso de P. ficus na cultura da videira conduzida em regiões de clima temperado, a janela de aplicação deve ser sincronizada com o período de maior crescimento vegetativo e radicular e com a predominância de ninfas de primeiro e segundo ínstares. Nessas condições, a redistribuição da molécula é maximizada, permitindo explorar plenamente seu período residual de controle. Recomenda-se concentrar o uso da espiropidiona nessa janela, limitando sua utilização a duas aplicações por safra, com intervalo aproximado de 21 dias entre elas. Após esse período, o manejo deve prosseguir com inseticidas de diferentes mecanismos de ação, reduzindo a pressão de seleção para resistência e preservando a vida útil dessa tecnologia.

Embora o reduzido efeito de choque da espiropidiona possa incentivar sua associação com inseticidas de ação mais rápida, essa estratégia deve ser empregada com critério na fruticultura. Além de aumentar o risco de resíduos nos frutos, a utilização simultânea de diferentes mecanismos de ação pode intensificar a pressão de seleção para resistência em culturas perenes, reduzindo as alternativas futuras de manejo.

Outra implicação prática dessa tecnologia é o reduzido potencial das aplicações via solo. Como a espiropidiona foi desenvolvida para absorção foliar e posterior redistribuição pelo xilema e floema, as pulverizações foliares exploram de forma mais eficiente sua ambimobilidade e devem constituir a estratégia preferencial de aplicação.

5. Considerações finais

Os inseticidas cetoenóis ambimóveis representam uma importante evolução no manejo de insetos sugadores da viticultura e da fruticultura de clima temperado. Entretanto, sua eficiência depende menos das propriedades individuais de cada molécula e mais do correto posicionamento agronômico. A absorção foliar, a redistribuição sistêmica, o estádio fenológico da planta, o estádio de desenvolvimento da praga e a tecnologia de aplicação atuam de forma integrada e determinam a eficiência do controle.

Na viticultura de clima temperado, o máximo potencial dos inseticidas cetoenóis ambimóveis é obtido quando as aplicações são sincronizadas com o período de maior crescimento vegetativo e radicular e com a predominância de ninfas de primeiro e segundo ínstares de Planococcus ficus. Embora esses princípios tenham sido desenvolvidos na videira, eles constituem uma base conceitual para o posicionamento futuro destes inseticidas em outras frutíferas de clima temperado e espécies de insetos praga.

Mais do que disponibilizar um novo grupo químico, os inseticidas cetoenois ambimóveis representam uma nova abordagem para o manejo de insetos sugadores suscetíveis. Seu sucesso depende da correta integração entre a fisiologia da planta, a biologia da praga e a qualidade e o direcionamento da pulverização. Esse conceito deve orientar o posicionamento agronômico desses inseticidas na viticultura e, futuramente, em outras frutíferas de clima temperado.

Referências bibliográficas

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Marcos Botton – Embrapa Uva e Vinho

Eduardo Borges e Daniel Bernardi – Universidade Federal de Pelotas

 

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