Competição saprofítica  no manejo de doenças na cultura da macieira

Os restos culturais presentes no solo de um pomar podem servir como fonte de matéria orgânica, mas também de fonte de inóculo de patógenos causadores de doenças. Fungos que causam doenças foliares, geralmente sobrevivem em folhas caídas ao chão, a exemplo dos agentes causais de Sarna, Mancha Foliar da Gala e Mancha de Marssonina. Frutos mumificados, cancros, galhos podados, gemas, Burrknots e outros tecidos das plantas podem servir de abrigo ou fonte de nutrientes para a sobrevivência de patógenos associados às Podridões, Cancro de Papel, Cancro Europeu (Pinto et al., 2021; Araujo et al., 2026).

Durante a decomposição desses resíduos, microrganismos de uma mesma espécie ou espécies diferentes, competem por espaço e nutrientes, para o seu desenvolvimento. Essa interação é chamada de competição saprofítica, e pode ser utilizada como ferramenta no manejo de doenças, pois podemos introduzir microrganismos benéficos no sistema, como fungos e/ou bactérias, dificultando a sobrevivência e multiplicação de agentes causais de doenças.

E como podemos usar a competição saprofítica no manejo de doenças no pomar? Através da aplicação de microrganismos antagonistas sobre os restos culturais, favorecendo sua colonização antes e/ou durante o estabelecimento do patógeno. Outra estratégia é a utilização de plantas de cobertura, que aumentam a quantidade de matéria orgânica, além de modificar as condições físicas, químicas e biológicas do solo (Moreira & Siqueira, 2006). Assim, o objetivo é que os resíduos sejam rapidamente colonizados e decompostos por microorganismos competidores, evitando a disponibilidade dos recursos para os patógenos e liberando os nutrientes retidos na matéria orgânica para a planta.

Por exemplo, Venturia inaequalis, agente causal da sarna da macieira, produz pseudotécios (estruturas da fase sexuada) na superfície das folhas, que ao caírem no chão, se tornam fonte de inóculo para o ciclo primário da cultura. Assim, a aplicação de agentes de biocontrole na pré e pós-colheita pode favorecer sua atuação no controle contra o patógeno, diminuindo a pressão de inóculo no ambiente (Okoro et al., 2024).

Os agentes de biocontrole Trichoderma spp. são fungos que podem exercer atividade de parasitismo, indução de resistência, promoção de crescimento e antibiose, produzindo enzimas como quitinases e celulases, além de metabólitos secundários que atuam na redução da viabilidade do patógeno e consequentemente controle das doenças por eles causadas. Tal gênero também está presente no solo e nas raízes das plantas, além de participar da decomposição de resíduos orgânicos presentes no ambiente. Ao ser aplicado sobre restos culturais com fontes de inóculo, Trichoderma spp. competem pelo substrato, além de parasitar e dificultar o estabelecimento de patógenos (Harman et al., 2004; Harman, 2006;).

Outra estratégia que pode ser utilizada, consiste  no uso de plantas de cobertura, como a gramínea aveia-preta (Avena strigosa) e a leguminosa ervilhaca (Vicia sativa). Mas por que manter o solo coberto no campo de produção? O resíduo orgânico gerado passará pelo processo de decomposição, que é desempenhada por microrganismos presentes no solo, através da produção de enzimas extracelulares. Posteriormente, ocorre a decomposição de outros resíduos e inicia-se a mineralização da biomassa, além de liberação de CO2, energia e a decomposição da celulose e lignina. Tais processos geram matéria orgânica, mantém a temperatura e a umidade no solo e promovem a sucessão das comunidades microbianas, que por sua vez modificam a disponibilidade de recursos e as interações entre os microrganismos (Moreira & Siqueira, 2006).

No caso de Neonectria ditissima, agente causal do Cancro Europeu a competição saprofítica não estará restrita nas folhas, como no exemplo da sarna da macieira, mas nos resíduos lenhosos. Em um estudo realizado na Europa, cujo objetivo foi encontrar potenciais agentes de biocontrole para o controle desta doença, os pesquisadores isolaram e testaram Clonostachys rosea, fungo saprófito, contra N. ditissima e os resultados foram promissores, com redução da concentração de inoculo e controle da doença (Elena et al.; 2022). Infelizmente no momento ainda não dispomos de produto a base deste ingrediente ativo no mercado brasileiro mas tão logo tenhamos, vale a pena o considerar para este algo.

Atualmente a estratégia utilizada para decomposição dos resíduos consiste na aplicação de uréia, entretanto se essa pulverização for direcionada para as plantas pode causar ferimentos, imperceptíveis a olho nu, que favorecem a entrada de Neonectria ditissima e aumentam a ocorrência do Cancro Europeu, assim a recomendação é que se realize essa operação direcionada as folhas caídas no solo. Dessa forma, mais pesquisas precisam ser desenvolvidas para que agentes de  controle biológico sejam utilizados e favoreçam a competição saprofítica, resultando em melhor manejo de doenças em macieiras.

 

 

Referências Bibliográficas

Araujo, L., Pinto, F. A. M. F., & Arioli, C. J. (2026). Aviso Fitossanitário–Nº 1–Ciclo 2026/2027. Informe técnico, (61), 4-4.

 

Elena, G., Groenenboom-de Haas, B. H., Houwers, I., de Lange, E., Schnabel, S. K., & Köhl, J. (2022). Systematic stepwise screening of new microbial antagonists for biological control of European canker. Biological control, 174, 105009.

Harman G E. (2006) Overview of Mechanisms and Uses of Trichoderma spp. Phytopathology 2: 190-4.

Harman G, Howell C R, Viterbo A; Chet I, Lorito M (2004) Trichoderma species — opportunistic, avirulent plant symbionts. Nature Reviews Microbiology 2, 43–56.

Moreira, F., & Siqueira, J. O. (2006). Microbiologia e Bioquímica do solo. Editora Ufla.

Okoro, C. A., El-Hasan, A., & Voegele, R. T. (2024). Integrating Biological Control Agents for Enhanced Management of Apple Scab (Venturia inaequalis): Insights, Risks, Challenges, and Prospects. Agrochemicals, 3(2), 118-146.

Pinto, F. A., Araujo, L., Ogoshi, C., & Monteiro, F. P. (2021). Survival of Neonectria ditissima in apple burrknots and cankers in southern Brazil.

 

Bárbara Aparecida Antonio de Sousa e Silva¹, Flávio Henrique Vasconcelos de Medeiros¹, Felipe Augusto Moretti Ferreira Pinto²

 

¹Departamento de Fitopatologia, Universidade Federal de Lavras (UFLA), Lavras – MG,  ²Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) – Estação Experimental de São Joaquim, São Joaquim, SC. Informações: barbara.silva14@estudante.ufla.br,flaviomedeiros@ufla.br, felipepinto@epagri.sc.gov.br

 

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