03 mar

NÃO É VANTAJOSO APLICAR ADUBOS ORGÂNICOS EM POMARES DE MACIEIRA

Na maioria das situações, não é recomendado aplicar adubos orgânicos em pomares de macieira já implantados. Neste artigo, iremos descrever as razões para tal.

Inicialmente vamos caracterizar o que é definido como adubo orgânico, a composição e algumas características dos mesmos, sempre que possível comparando-os com os fertilizantes minerais tradicionais. Adubo é qualquer material que possui um ou mais nutriente essencial aos vegetais e que, quando aplicado ao solo, libera esses elementos para as plantas. Basicamente existem adubos orgânicos, minerais, e uma mistura de ambos, os organo-mineriais. Os adubos orgânicos originam-se de restos de animais e/ou plantas, e possuem uma grande quantidade de carbono, uma pequena quantidade de macro e micronutrientes, e uma quantidade muito variável de água, que pode ir de quase zero a até próximo de 90%.

Na região brasileira produtora de maçãs, basicamente existem dois adubos orgânicos disponíveis em grandes quantidades para serem aplicados nos pomares: a cama de aves, oriunda da criação de frangos destinados à produção de carne, e o esterco de galinhas poedeiras de ovos. A cama de aves é constituída pelo material usado como cama (normalmente serragem da indústria madeireira ou casca de arroz) acrescido dos dejetos dos animais e de restos de ração; o esterco de poedeiras só possui os dejetos e restos de ração. A diferença é que a cama de aves possui muito menor quantidade de água que o esterco de poedeiras, e água não possui nutrientes. Em estudo feito por nossa equipe, ao avaliarmos a composição de 165 lotes de cama de aves comercializados na região de Vacaria, RS, verificamos que o teor médio foi de 2,2% para N, de 3,0% para P2O5, e de 2,9% para K2O, cuja média de água foi de 22% e de C orgânico de 28% (Rogeri et al., 2016). A composição química do esterco de aves poedeiras de ovos é ainda menor, em função da grande quantidade de água nela existente.

Verifica-se pelos dados acima apresentados que a composição química desses adubos orgânicos é bem baixa, em comparação aos adubos químicos. Só para exemplificar, a ureia tem 45% de N, o superfosfato triplo tem 45% de P2O5, o KCl tem 60% de K2O, e um adubo misto tipo 12-30-20, tem 12% de N, 30% de P2O5 e 20% de K20. Sendo assim, a quantidade de adubos orgânicos a ser aplicada deve ser inúmeras vezes maior do que a quantidade dos adubos químicos, com o intuito de fornecer quantidades semelhantes de nutrientes.

Outro aspecto a ser considerado em relação aos adubos orgânicos, normalmente desconsiderado pelos técnicos, é que os valores referentes à composição química dos mesmos, fornecida pelos laboratórios nos laudos de analise, se referem a material seco e não ao produto adquirido, que possui água. Os valores no adubo que está lá no pomar para ser aplicado são mais baixos, pois a percentagem de água existente no mesmo deve ser subtraída dos valores mostrados na análise. Por exemplo, um adubo orgânico cuja análise indica ter 2,0 % de N e 30% de umidade, terá, na verdade, 1,4% de N (2,0 x 0,7), ou seja, 1,0 tonelada do mesmo terá 14 kg de N.

Nos adubos orgânicos, somente parte de alguns nutrientes, como N e P, se torna disponível para as plantas a curto prazo. Considerando um período de 4 a 6 meses após a aplicação, aproximadamente 60% desses dois nutrientes sairão da fração orgânica, diferentemente do K, que é liberado 100% já no dia da aplicação ao solo. Conhecer essas taxas de liberação é importante para decidir a época em que o adubo orgânico deve ser aplicado ao pomar. Se ele por aplicado no inverno, grande parte dos 60% do N liberado não será absorvida pelas macieiras, pois nesse período a capacidade de absorção das plantas é pequena devido às baixas temperaturas, e o N pode se perder por lixiviação.

Um benefício dos adubos orgânicos em relação aos minerais é a presença de micronutrientes em sua composição. Entretanto, nas regiões onde a macieira é cultivada no Brasil, a disponibilidade desses nutrientes no solo é alta, não sendo necessária a adição dos mesmos aos pomares. Portanto, a existência de micronutrientes não deve ser uma justificativa para a decisão de aplicar adubo orgânico aos pomares.

Outro benefício dos adubos orgânicos em relação aos adubos minerais é que eles possuem C orgânico, ou seja, tendem a aumentar a matéria orgânica do solo (MOS), a qual proporciona inúmeros efeitos benéficos no solo. O aumento da MOS ocasionado pela adição de adubos orgânicos, entretanto, é muito pequeno em função dos altos teores de MO nos solos da região produtora de maçãs no Brasil, normalmente acima de 4,0%. Considerando somente a camada superficial de 0 a 30 cm de espessura, um solo com 5% de MO tem aproximadamente 150 toneladas de MO (3.000 x 0,05). A adição de 10.000 kg/ha (10 toneladas) de um adubo orgânico que tenha 30% de C e 30% de água, adicionará ao solo 2,1 toneladas de C (10.000 x 0,7 x 0,3). Como aproximadamente 70% do C adicionado se perde na forma de CO2 durante o processo de decomposição microrgânica, restarão apenas 0,63 t/ha de C (2,1 x 0,3). Como a MOS tem 58% de C, haverá um incremento de 1,1 t/ha de MOS (0,63 x 1,73), o que é pouco expressivo em relação ao total existente no solo (150 toneladas). Portanto, o aumento da MOS também não é uma justificativa para a adição de adubo orgânicos aos pomares.

Um aspecto extremamente relevante em relação a cultura da macieira é que ela é muito pouco exigente em fósforo. Em solos bem fertilizados com este nutriente por ocasião da implantação do pomar, não há necessidade de serem aplicados adubos fosfatados durante toda a vida útil do pomar. A liberação do fósforo a partir da decomposição da matéria orgânica do solo já é suficiente para satisfazer a demanda da cultura. Sendo assim, o P contido no adubo orgânico normalmente não deve ser embutido no custo total do produto.

Considerando o que foi exposto, a decisão em aplicar adubo orgânico aos pomares será meramente econômica e irá depender do preço de seus nutrientes em relação ao dos adubos minerais. Se o adubo orgânico for aplicado em áreas com solo sem restrição física ao crescimento das raízes, seu custo em relação aos fertilizantes minerais tem que ser calculado considerando somente suas concentrações de N e K; por outro lado, se ele for aplicado em áreas com predomínio de pedras na camada superficial, o P também deve ser considerado e, nessas condições, seu uso pode passar a ser viável. Os cálculos que temos feito considerando o preço atual dos adubos orgânicos e dos fertilizantes minerais mostram que economicamente não é viável o uso dos adubos orgânicos em pomares de macieira já implantados, cujo solo tenha profundidade maior do que 40 cm e não possua muitas pedras ou pedregulhos nessa camada.

Literatura Citada: Rogeri, DA; Mantovani, A.; Ernani, PR & Lourenco, KS. Composition of poultry litter in Southern Brazil. Revista Brasileira de Ciência do Solo, 40:e0140697, 2016.

Paulo Roberto Ernani é Professor Titular da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), onde leciona e realiza pesquisas cientificas há 45 anos. É Engenheiro e Mestre em Fertilidade do Solo pela UFRGS, e Ph.D. em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas pela Purdue University (EUA), com treinamento de Pós-Doutorado em Nutrição de macieiras na Michigan State University (USA).

 

Prof. Paulo Roberto Ernani

 

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