Pomicultura Brasileira: ciência e inovação para os desafios de uma nova geração

A pomicultura brasileira construiu, nas últimas décadas, uma trajetória de profissionalização, incorporação de tecnologias e avanços em produtividade e qualidade dos frutos, resultado do esforço conjunto de produtores, empresas e instituições de pesquisa. Entretanto, mudanças climáticas, aumento dos custos de produção, pressão fitossanitária, exigências dos mercados e escassez de mão de obra demandam sistemas produtivos mais eficientes, resilientes e sustentáveis.

Responder a esses desafios será uma das prioridades da Embrapa Uva e Vinho no ciclo de gestão 2026–2028. Nossa proposta é fortalecer a integração entre pesquisa, transferência de tecnologia e setor produtivo, aproximando as competências científicas das demandas dos produtores e empresas. Mais do que desenvolver tecnologias, queremos transformar conhecimento em soluções efetivamente adotadas, com benefícios econômicos, ambientais e sociais.

Essa orientação está refletida no Plano de Gestão 2026–2028, estruturado em três eixos: transformação produtiva para resiliência climática e sustentabilidade socioeconômica; sanidade vegetal e Saúde Única; e diferenciação de produtos com agregação de valor. Esses eixos orientarão uma agenda integrada de pesquisa e inovação, construída em parceria com o setor produtivo, visando à competitividade e à sustentabilidade da pomicultura brasileira.

Genética como resposta aos novos desafios

O melhoramento genético continuará sendo estratégico para a pomicultura brasileira. Na pereira, cuja produção nacional ainda é limitada, a prioridade será ampliar a disponibilidade de cultivares adaptadas às condições brasileiras, por meio do fortalecimento do Banco Ativo de Germoplasma e do desenvolvimento de novos materiais genéticos.

Um resultado desse trabalho é a BRS Áurea, primeira cultivar de pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da Embrapa Uva e Vinho, iniciado em 2006. Registrada em 2025, apresenta potencial produtivo de 25 a 30 toneladas por hectare e colheita precoce, no início de janeiro, representando uma alternativa para diversificar a produção nacional e reduzir a dependência de importações.

Na macieira, em complementaridade ao programa de melhoramento genético da Epagri, a Embrapa pretende avançar no uso de ferramentas de edição gênica para desenvolver genótipos com características de interesse agronômico e comercial, especialmente resistência a doenças, conservação pós-colheita e adaptação às condições ambientais. Essas iniciativas integram as prioridades de pesquisa e inovação da Unidade para os próximos anos.

 

Produzir em um clima que está mudando

Um dos principais desafios da fruticultura de clima temperado será manter a regularidade da produção diante da crescente variabilidade climática. Alterações na disponibilidade de frio hibernal, estiagens, excesso de chuvas, temperaturas elevadas e eventos extremos comprometem a brotação, a floração, a frutificação, a qualidade dos frutos e a produtividade.

Enfrentar esse cenário exige integrar genética, fisiologia vegetal e práticas de manejo, incluindo solo, água, nutrição, sistemas de condução e proteção dos pomares. A adaptação climática será uma prioridade transversal da pesquisa, buscando desenvolver sistemas produtivos mais resilientes, reduzir perdas e custos e assegurar maior estabilidade à produção.

 

Mais eficiência no uso de água e nutrientes

A agricultura de precisão e as tecnologias digitais terão papel crescente na eficiência dos sistemas produtivos. Um exemplo é o Irrifert, tecnologia desenvolvida pela Embrapa para apoiar o manejo da irrigação e fertirrigação em macieiras, considerando informações do solo e das condições do pomar.

Essa abordagem deverá ser ampliada com novas ferramentas de monitoramento e apoio à decisão, buscando otimizar o uso de água e fertilizantes, reduzir custos de produção e melhorar a produtividade e a qualidade dos frutos, com maior sustentabilidade ambiental.

Sanidade e bioinsumos

As mudanças climáticas podem alterar a ocorrência e a intensidade de pragas e doenças, enquanto as exigências dos mercados quanto à segurança dos alimentos e aos limites de resíduos de agrotóxicos reforçam a necessidade de estratégias fitossanitárias mais eficientes e sustentáveis.

Nesse cenário, a Embrapa pretende fortalecer o manejo integrado de pragas e doenças, combinando monitoramento, prevenção, controle biológico e ferramentas digitais de apoio à decisão. Entre as prioridades estão o desenvolvimento de métodos alternativos de controle, incluindo o uso de parasitoides e a técnica do inseto estéril para moscas-das-frutas, além de sistemas regionais de monitoramento e alerta fitossanitário.

Os bioinsumos representam outra frente estratégica. A ampliação das competências em microbiologia e biotecnologia, apoiada na Coleção de Microrganismos de Interesse Agroindustrial da Unidade, com mais de 4.800 acessos, deverá contribuir para o desenvolvimento de soluções biológicas destinadas ao manejo fitossanitário e à promoção do crescimento vegetal, ampliando as alternativas para uma produção mais sustentável.

Mecanização para enfrentar a escassez de mão de obra

A escassez e o aumento dos custos da mão de obra representam desafios crescentes para a pomicultura, especialmente em atividades como poda, raleio e colheita. Nesse cenário, a mecanização e a automação, associadas à adaptação dos sistemas de produção, serão fundamentais para aumentar a eficiência operacional, reduzir custos e melhorar as condições de trabalho nos pomares.

Para fortalecer essa frente, a Embrapa Uva e Vinho incorporou, em 2026, um pesquisador dedicado à mecanização. As pesquisas deverão avançar de forma integrada à agricultura digital, explorando sensores, imagens, inteligência artificial e ferramentas de apoio à decisão, em articulação com iniciativas como o Semear Digital e parcerias com outras instituições.

Diferenciação de produtos e agregação de valor

A diferenciação de produtos e a agregação de valor representam oportunidades para ampliar a competitividade da pomicultura brasileira. A Embrapa pretende fortalecer as pesquisas em processos agroindustriais, com destaque para a qualificação e diversificação da produção de sidras, explorando matérias-primas, processos fermentativos e características sensoriais que contribuam para o desenvolvimento de produtos diferenciados e de maior valor agregado.

O aproveitamento de frutas e resíduos agroindustriais, associado aos princípios da economia circular, e a experiência da Unidade com Indicações Geográficas também poderão contribuir para ampliar as oportunidades de mercado e valorizar a identidade territorial da produção.

A tecnologia precisa chegar ao pomar

Transformar conhecimento científico em soluções efetivamente adotadas pelos produtores será uma das prioridades da Embrapa Uva e Vinho. Para isso, pretendemos fortalecer a integração entre pesquisa, transferência de tecnologia e setor produtivo, incorporando as demandas dos usuários desde a concepção dos projetos e ampliando a validação das tecnologias em condições reais de produção.

Entre as iniciativas previstas estão a implantação de vitrines tecnológicas e a ampliação das capacitações presenciais e digitais, em parceria com instituições de assistência técnica, cooperativas e organizações do setor, como SENAR, Emater, Epagri, Agapomi e ABPM. Essas ações deverão contribuir para acelerar a adoção das tecnologias e ampliar seus impactos econômicos, sociais e ambientais.

A Estação Experimental de Fruticultura de Clima Temperado, em Vacaria (RS), com sua equipe liderada pelo pesquisador e supervisor Gilmar Nachtigall, terá papel estratégico na pesquisa, validação e demonstração de tecnologias para maçã, pera e outras frutíferas, fortalecendo a integração da Embrapa com os produtores e parceiros da região dos Campos de Cima da Serra.

 

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Nova equipe de gestão

A Embrapa Uva e Vinho iniciou um novo ciclo de gestão em 1º de setembro de 2026, com a posse do pesquisador Henrique Pessoa dos Santos como chefe-geral da Unidade para o período 2026–2028. Com 25 anos de atuação na Embrapa, Henrique reúne experiência em pesquisa, gestão e articulação com os setores produtivos da vitivinicultura e da pomicultura.

A equipe de gestão é composta por Marcos Botton, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia; Henrique Pessoa dos Santos, chefe-geral, Lisiani Ritter Mesquita, chefe-adjunta de Administração e  Daniel Santos Grohs, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento (da esquerda para a direita). Crédito: Viviane Zanella

 

 

Por Henrique Pessoa dos Santos, chefe-geral da Embrapa Uva e Vinho

 

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