A Importância do Controle Biológico no Manejo da Mosca-das-Frutas Anastrepha fraterculus
A mosca-das-frutas sul-americana, Anastrepha fraterculus (Diptera: Tephritidae), é uma das principais pragas da fruticultura na América do Sul. A espécie ataca diversas fruteiras cultivadas e também plantas hospedeiras nativas, causando perdas econômicas e exigindo manejo constante nos pomares.
O controle da espécie tem como base a integração de diferentes estratégias, como o monitoramento populacional, o manejo cultural dos pomares, o uso de tecnologias de atrai & mata e, quando necessário, o controle químico através da pulverização com inseticidas Entre essas abordagens, o controle biológico com parasitoides tem recebido atenção crescente, pois permite reduzir as populações da praga de forma ambientalmente sustentável e compatível com os princípios do Manejo Integrado de Pragas (MIP).
O que são parasitoides e como atuam
Parasitoides são pequenos insetos, geralmente vespas, que se desenvolvem associados a um hospedeiro. No caso das moscas-das-frutas, a fêmea do parasitoide deposita seus ovos dentro das larvas da praga. A larva do parasitoide então se desenvolve alimentando-se do hospedeiro ao longo do seu crescimento.
No caso das moscas-das-frutas, o hospedeiro parasitado ainda chega à fase de pupa no solo. No entanto, em vez de originar uma nova mosca, emerge um parasitoide resultando na interrupção no desenvolvimento da praga.
Esse processo ocorre naturalmente em diversos ambientes agrícolas e silvestres, contribuindo para a mortalidade natural das moscas-das-frutas.
Uso histórico do controle biológico com parasitoides
O uso de parasitoides para o controle de pragas não é recente. No Brasil, um dos primeiros registros de aplicação desse método no manejo de moscas-das-frutas ocorreu em 1937, com a introdução do parasitoide Tetrastichus giffardianus (Hymenoptera: Eulophidae) para o controle da mosca-do-mediterrâneo Ceratitis capitata em pomares do estado de São Paulo. Esse episódio é frequentemente citado como um marco inicial das iniciativas de controle biológico de moscas-das-frutas no país.
Durante muitas décadas, diversos programas de controle tiveram como base o controle biológico clássico, que consiste na introdução de inimigos naturais para o controle de uma espécie praga. No caso das moscas-das-frutas, diferentes espécies de parasitoides foram introduzidas ou avaliadas ao redor do mundo com objetivo de restabelecer o equilíbrio da praga.
Parasitoides exóticos utilizados no controle
Entre os parasitoides mais utilizados em programas de controle biológico de moscas-das-frutas destaca-se Diachasmimorpha longicaudata (Hymenoptera: Braconidae). Essa espécie deposita seus ovos em larvas de moscas-das-frutas, geralmente no terceiro instar, que se encontram no interior dos frutos.
Devido à sua alta capacidade de parasitismo, boa adaptação à criação em laboratório e facilidade de produção em larga escala, esse parasitoide tornou-se uma das espécies mais utilizadas em programas de controle biológico aumentativo contra moscas-das-frutas em diversos países.
No Brasil, essa espécie foi introduzida em 1994 pela Embrapa Mandioca e Fruticultura e desde então vem sendo criada com sucesso em laboratório, tendo demonstrado capacidade de parasitar larvas em diversas espécies de fruteiras.
A importância dos parasitoides nativos
Além das espécies introduzidas, pesquisas também têm destacado a importância dos parasitoides nativos, entre eles destaca-se Doryctobracon areolatus (Hymenoptera: Braconidae), um parasitoide larval amplamente distribuído e frequentemente associado a larvas de moscas do gênero Anastrepha.
Essa espécie é capaz de parasitar larvas em estágios mais jovens dentro dos frutos, enquanto ainda estão se alimentando da polpa. Além disso, ocorre naturalmente em diversos ambientes agrícolas e áreas de vegetação nativa, compondo o complexo de inimigos naturais que ajudam a regular as populações da praga.
Parasitoides nativos como D. areolatus frequentemente apresentam boa adaptação às condições ambientais do sul do Brasil, como clima, disponibilidade de hospedeiros e características da vegetação regional.
Uso combinado de parasitoides
Estudos em controle biológico indicam que a liberação de mais de uma espécie de parasitoide pode aumentar a eficiência no controle de pragas. Isso ocorre especialmente quando essas espécies exploram o hospedeiro de maneiras diferentes.
Algumas espécies podem atacar o hospedeiro em fases distintas do seu desenvolvimento, enquanto outras diferem na forma como localizam as larvas dentro dos frutos ou no ambiente. Nessas situações, os parasitoides podem atuar de forma complementar, aumentando a mortalidade da praga.
Mesmo quando existe alguma sobreposição entre as espécies, a coexistência ainda pode ser vantajosa. Algumas espécies são mais eficientes em localizar hospedeiros quando a população da praga está baixa, enquanto outras apresentam melhor desempenho quando há maior abundância de larvas.
Integração com outras estratégias de manejo
O uso de parasitoides não substitui outras práticas de manejo, mas atua de forma integrada com elas. O controle biológico costuma ser aplicado juntamente com o monitoramento populacional, o manejo de hospedeiros alternativos e, em alguns programas, com a utilização da técnica do inseto estéril.
Essa integração de diferentes estratégias faz parte do chamado manejo em área ampla de moscas-das-frutas, cujo objetivo é reduzir as populações da praga em escala regional, tornando o sistema de produção mais eficiente e sustentável.
A importância da qualidade do hospedeiro
Outro aspecto importante em programas de controle biológico é a qualidade do hospedeiro utilizado na criação dos parasitoides. Características das larvas hospedeiras podem influenciar diretamente o desenvolvimento do parasitoide, afetando parâmetros como taxa de parasitismo, sobrevivência e qualidade dos adultos produzidos.
Por esse motivo, programas de criação de parasitoides utilizam protocolos padronizados de produção, buscando garantir que os insetos liberados em campo apresentem bom desempenho e capacidade de localizar e parasitar as larvas da praga.
É dentro desse contexto que se inserem os estudos realizados em laboratório, que buscam avaliar o desempenho dos parasitoides e o impacto de sua liberação no controle da mosca-das-frutas.
Estruturação da criação de parasitoides
A partir de 2024, foi estruturado um protocolo para a criação, manejo e liberação dos parasitoides D. longicaudata e D. areolatus, utilizados no controle biológico da mosca-das-frutas sul-americana A. fraterculus. As recomendações foram sistematizadas na Instrução Técnica LMS.IT.001.01, desenvolvida pelo Laboratório de Entomologia Moscasul, com o objetivo de padronizar os procedimentos de criação e garantir a qualidade biológica dos insetos destinados à liberação em campo.
O protocolo descreve, em formato operacional, todas as etapas do processo, incluindo a produção e manejo do hospedeiro, definição do estádio larval adequado para parasitismo, tempos de exposição das larvas às fêmeas parasitoides, procedimentos pós-parasitismo e monitoramento da emergência dos adultos. Também foram estabelecidas recomendações para a construção de gaiolas utilizadas na criação, transporte e liberação dos parasitoides, visando reduzir estresse e perdas durante o manejo.
Considerando que o desempenho do parasitoide está diretamente relacionado à qualidade do hospedeiro, o protocolo inclui orientações para a criação de A. fraterculus, contemplando dieta, condições ambientais e critérios para seleção de lotes destinados ao parasitismo.
Adicionalmente, é realizado o controle de qualidade da criação de D. longicaudata por meio da avaliação de pupas amostradas da colônia, sendo observada razão sexual média de 0,3 e taxa média de parasitismo de 31,8%, parâmetros considerados adequados para manutenção da qualidade biológica do material produzido.
Parasitismo de Diachasmimorpha longicaudata em frutos nativos
Durante o verão de 2024/2025 foi avaliado o parasitismo de D. longicaudata em uma área com ocorrência natural da mosca-das-frutas sul-americana A. fraterculus associada à guabirobeira Campomanesia xanthocarpa, no município de Vacaria.
As liberações foram realizadas utilizando parasitoides provenientes de criação em laboratório, obtidos a partir de larvas de A. fraterculus. Os adultos foram liberados aproximadamente cinco dias após a emergência, considerando o ritmo de desenvolvimento da espécie e as condições ambientais do período.
Entre 5 de dezembro de 2024 e 24 de janeiro de 2025 foram realizadas oito liberações sucessivas de D. longicaudata, com volumes variáveis por liberação. Os maiores volumes ocorreram no início de janeiro, quando uma das liberações ultrapassou 13.200 pupários (aproximadamente 5.000 parasitados), coincidindo com o aumento da pressão populacional da praga no campo (Figura 1).
Os resultados indicaram presença efetiva do parasitoide na área, com registros de parasitismo ao longo do período de amostragem. Destaca-se a sexta liberação, associada ao maior percentual de parasitismo observado (6%) e a uma das menores taxas de emergência de A. fraterculus (26%), em período próximo aos picos de liberação registrados no início de janeiro. Esse resultado sugere uma resposta positiva do parasitoide ao aumento no número de indivíduos liberados e à maior disponibilidade de hospedeiros no ambiente (Figura 2).
Avaliações adicionais foram realizadas em uma coleção de goiaba-serrana Feijoa sellowiana no mesmo município. Os resultados indicaram que as taxas de parasitismo não aumentaram de forma linear com o número de pupários recuperados, sugerindo que a densidade do hospedeiro, isoladamente, não determina o nível de parasitismo. Fatores como condições ambientais, estágio de desenvolvimento das larvas, eficiência de busca do parasitoide e disponibilidade temporal do hospedeiro também influenciaram o processo (Figura 3).
A análise temporal das liberações mostrou que os picos de parasitismo observados frequentemente refletem o efeito residual das liberações anteriores, e não necessariamente uma resposta imediata às liberações realizadas na mesma data. Isso indica que o impacto do parasitoide no ambiente ocorre de forma gradual e cumulativa, dependente da persistência da população liberada e da dinâmica natural da praga (Figura 4).
De modo geral, os resultados demonstram uma tendência de aumento e manutenção de níveis de parasitismo ao longo do período experimental, sugerindo que as liberações sucessivas contribuíram para a presença e atividade do parasitoide no ambiente. Esses resultados reforçam a importância do planejamento das liberações ao longo do tempo, de forma a favorecer a persistência do parasitoide e maximizar a eficiência do controle biológico.
Parasitismo de Doryctobracon areolatus em frutos nativos
Um experimento para avaliação do parasitismo por Doryctobracon areolatus em frutos nativos foi iniciado recentemente no âmbito deste projeto. As liberações do parasitoide estão sendo realizadas com insetos fornecidos por meio de uma parceria com a Embrapa Clima Temperado, instituição responsável pela criação da espécie.
Os parasitoides vêm sendo liberados em uma área experimental com ocorrência de goiaba-serrana, ambiente naturalmente associado à presença de Anastrepha fraterculus. As liberações têm como objetivo avaliar o estabelecimento e o desempenho desse parasitoide nativo em condições de campo.
Imagens:





Foto: Vieira, L.C.

Foto: Vieira, L.C.

Foto: Della Giustina, P.G.
Paloma Guazzelli Della Giustina¹ Adalecio Kovaleski², Dori Edson Nava³, Thiago Mastrangelo4, Leandra Vieira Cassol5, Lucas Daniel Vieira Almeida6
¹ Engenheira Agrônoma, Dra., Supervisora de Controle de Qualidade, Solufly, Brasil. Contato: gestaosolufly@gmail.com
² Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador em Entomologia, Embrapa Uva e Vinho, Brasil.
³ Engenheiro Agrônomo, Dr., Pesquisador, Embrapa Clima Temperado, Brasil.
⁴ Engenheiro Agrônomo, Dr., Docente, Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), Universidade de São Paulo – ESALQ/USP, Brasil.
⁵ Bolsista de Iniciação Científica, FAPERGS, Brasil.
⁶ Bolsista de Iniciação Científica, FAPEG, Brasil.





