22 abr

Dinâmica temporal da liberação de esporos de Neonectria ditissima em ramos inteiros e triturados das cultivares de maçã Gala e Fuji

Introdução

Atualmente, o cancro europeu (CE) da macieira, causado pelo fungo Neonectria ditissima é considerado um dos principais problemas enfrentados pelos fruticultores, devido à alta agressividade da doença que causa reduções de produtividade e aumenta o custo de produção. Para reduzir os danos e conter a doença nos pomares, recomenda-se remover ramos, e/ou erradicar plantas sintomáticas. Apesar, de muitos fruticultores queimarem e/ou retirarem dos pomares os ramos sintomáticos e o material vegetativo oriundo da poda como medida de controle, outros trituram os ramos e os distribuem no solo do pomar, presumindo que a fragmentação acelera a decomposição e limita a liberação de esporos de N. ditissima.

No entanto, estudos no Brasil demonstraram que N. ditissima pode liberar esporos em frutos de macieira (Araujo et al, 2021), ramos vivos e ramos podados (Araujo e Pinto, 2022) durante todas as estações do ano. O fungo pode permanecer assintomático dentro dos tecidos da macieira por meses antes do aparecimento dos sintomas. Além disso, o patógeno pode ser encontrado em tecidos assintomáticos cerca de 10 mm de distância de lesões visíveis do cancro (Olivieri et al., 2021). Esses achados reforçam a importância de compreender os padrões temporais de liberação de esporos de N. ditissima, particularmente a partir de diferentes tipos de resíduos de poda.

Portanto, o objetivo deste estudo foi quantificar e comparar a liberação de ascósporos e conídios de N. ditissima a partir de ramos podados, inteiros e triturados, sintomáticos ou assintomáticos, obtidos de macieiras ‘Gala’ e ‘Fuji’ durante as safras de 2023/2024 e 2024/2025 em São Joaquim/SC.

 

Metodologia

            Ramos inteiros e triturados, com e sem sintomas visíveis de CE, oriundos da poda de formação de macieiras ‘Gala’ e ‘Fuji’ durante as safras de 2023–2025 foram obtidos de um pomar com 70% das plantas classificadas como sintomáticas em 2020 (Araujo et al, 2023). Os ramos selecionados apresentavam diâmetros semelhantes (8,4–18,0 mm; média = 10,45 mm). Os ramos sintomáticos continham uma lesão ativa de cancro com comprimento entre 5 e 10 cm. Todos os ramos foram cortados em seções uniformes (18,0–32,0 cm; média = 24,2 cm) antes de serem colocados em armadilhas de liberação de esporos. Os ramos inteiros e triturados foram colocados separadamente em caixas coletoras de esporos. A liberação de esporos foi quantificada por meio da contagem de esporos (ascósporos e conídios), após períodos chuvosos presentes em lâminas de microscópio mantidas nas armadilhas.

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Resultados e Discussão

            Os ascósporos foram consistentemente o tipo de esporo dominante, apresentando maior magnitude e frequência de liberação do que os conídios em todos os tratamentos e em ambas as cultivares. Ramos sintomáticos inteiros apresentaram maiores picos de liberação de ascósporos e conídios, particularmente na cultivar ‘Gala’. A trituração de ramos reduziu a produção de esporos, mas não eliminou a viabilidade do inóculo, visto que os ramos sintomáticos triturados continuaram a liberar quantidades substanciais de esporos durante todo o período de avaliação. Ramos assintomáticos, inteiros e triturados, também liberaram ascósporos e conídios, embora em menor intensidade, demonstrando a presença de infecções latentes e confirmando que a ausência de sintomas visíveis não impede a produção de inóculo (Figura 1). Os picos de liberação de esporos em todos os tratamentos ocorreram durante períodos chuvosos, destacando a umidade como um fator ambiental chave para a maturação de peritécios e esporodóquios e para a liberação dos esporos. A maior capacidade de liberação de esporos da ‘Gala’ em todas as condições, indica que esta cultivar pode atuar como um recurso regional de inóculo em áreas onde o CE é endêmico. Esses resultados reforçam a necessidade de estratégias aprimoradas de manejo do CE, particularmente em relação ao manuseio de resíduos de poda. A persistência de inóculo viável em tecidos sintomáticos e assintomáticos, mesmo após a trituração, demonstra que a destruição ou remoção de resíduos é essencial para reduzir a pressão da doença e limitar a disseminação do patógeno dentro e entre pomares.

 

Para mais detalhes, consulte o artigo original

PEREIRA, M. F. G.; RUFATO, D. P.; RUFATO, L.; CASA, R. T.; SILVA, F. N.; MIQUELOTO, T.; PINTO, F. A. M. F.; ARAUJO L.; BOGO, A. Temporal dynamics of Neonectria ditissima spore release from whole and shredded branches of gala and fuji apple cultivars. Journal of Phytopathology, v. 174, p. 1-11, 2026.

In: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jph.70246?af=R




 

Figura 1- Número de ascósporos e conídios de Neonectria ditissima liberados de ramos inteiros (A e B) e triturados (C e D), sintomáticos (A e C) e assintomáticos (B e D) das cultivares Fuji e Gala durante período de avaliação de julho de 2023 a junho de 2024. Legenda: WSB: ramos sintomáticos inteiros; WSB: ramos assintomáticos inteiros; SSB: Ramos sintomáticos triturados; SAB: ramos assintomáticos triturados.

 

Referências

ARAUJO, L., PINTO, F. A., DE ANDRADE, C. C., & DUARTE, V. (2021). Viability and release of Neonectria ditissima ascospores on apple fruit in Brazil. Plant Pathology, 71(3), 654-667.

ARAUJO, L.; PINTO, F. A. M. F. (2022) Neonectria ditissima spore release in apple plants and detached branches in Brazil. Journal of Plant Pathology, 104(4):1283-1289. ARAÚJO, L.; PINTO, F. A. M. F.; NOGUEIRA, P. H. S.; LACONSKI, J. M. O. (2023) Progression of European canker and wound types favoring Neonectria ditissima infection in apple trees of different ages in Brazil. Tropical Plant Pathology, 48:73-78.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem ao CNPq e à Fapesc pelo suporte financeiro para realização dos estudos. Aos técnicos da Epagri Iran Souza Oliveira e Arthur Oliveira Souza pelo suporte téc­nico.

 

 

Marilia Feliciano Goulart Pereira1, Daiana Petry Rufato1, Leo Rufato1, Ricardo Trezzi Casa1, Fábio Nascimento da Silva1, Amauri Bogo1, Felipe A. Moretti F. Pinto2, Tiago Miqueloto2, Leonardo Araujo2

1 UDESC, Centro de Ciências Agroveterinárias

2Epagri, Estação Experimental de São Joaquim

Informações: leonardoaraujo@epagri.sc.gov.br; telefone: 49 – 3233-8438; 99803-1235

 

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