Dinâmica temporal da liberação de esporos de Neonectria ditissima em ramos inteiros e triturados das cultivares de maçã Gala e Fuji
Introdução
Atualmente, o cancro europeu (CE) da macieira, causado pelo fungo Neonectria ditissima é considerado um dos principais problemas enfrentados pelos fruticultores, devido à alta agressividade da doença que causa reduções de produtividade e aumenta o custo de produção. Para reduzir os danos e conter a doença nos pomares, recomenda-se remover ramos, e/ou erradicar plantas sintomáticas. Apesar, de muitos fruticultores queimarem e/ou retirarem dos pomares os ramos sintomáticos e o material vegetativo oriundo da poda como medida de controle, outros trituram os ramos e os distribuem no solo do pomar, presumindo que a fragmentação acelera a decomposição e limita a liberação de esporos de N. ditissima.
No entanto, estudos no Brasil demonstraram que N. ditissima pode liberar esporos em frutos de macieira (Araujo et al, 2021), ramos vivos e ramos podados (Araujo e Pinto, 2022) durante todas as estações do ano. O fungo pode permanecer assintomático dentro dos tecidos da macieira por meses antes do aparecimento dos sintomas. Além disso, o patógeno pode ser encontrado em tecidos assintomáticos cerca de 10 mm de distância de lesões visíveis do cancro (Olivieri et al., 2021). Esses achados reforçam a importância de compreender os padrões temporais de liberação de esporos de N. ditissima, particularmente a partir de diferentes tipos de resíduos de poda.
Portanto, o objetivo deste estudo foi quantificar e comparar a liberação de ascósporos e conídios de N. ditissima a partir de ramos podados, inteiros e triturados, sintomáticos ou assintomáticos, obtidos de macieiras ‘Gala’ e ‘Fuji’ durante as safras de 2023/2024 e 2024/2025 em São Joaquim/SC.
Metodologia
Ramos inteiros e triturados, com e sem sintomas visíveis de CE, oriundos da poda de formação de macieiras ‘Gala’ e ‘Fuji’ durante as safras de 2023–2025 foram obtidos de um pomar com 70% das plantas classificadas como sintomáticas em 2020 (Araujo et al, 2023). Os ramos selecionados apresentavam diâmetros semelhantes (8,4–18,0 mm; média = 10,45 mm). Os ramos sintomáticos continham uma lesão ativa de cancro com comprimento entre 5 e 10 cm. Todos os ramos foram cortados em seções uniformes (18,0–32,0 cm; média = 24,2 cm) antes de serem colocados em armadilhas de liberação de esporos. Os ramos inteiros e triturados foram colocados separadamente em caixas coletoras de esporos. A liberação de esporos foi quantificada por meio da contagem de esporos (ascósporos e conídios), após períodos chuvosos presentes em lâminas de microscópio mantidas nas armadilhas.
|
Resultados e Discussão
Os ascósporos foram consistentemente o tipo de esporo dominante, apresentando maior magnitude e frequência de liberação do que os conídios em todos os tratamentos e em ambas as cultivares. Ramos sintomáticos inteiros apresentaram maiores picos de liberação de ascósporos e conídios, particularmente na cultivar ‘Gala’. A trituração de ramos reduziu a produção de esporos, mas não eliminou a viabilidade do inóculo, visto que os ramos sintomáticos triturados continuaram a liberar quantidades substanciais de esporos durante todo o período de avaliação. Ramos assintomáticos, inteiros e triturados, também liberaram ascósporos e conídios, embora em menor intensidade, demonstrando a presença de infecções latentes e confirmando que a ausência de sintomas visíveis não impede a produção de inóculo (Figura 1). Os picos de liberação de esporos em todos os tratamentos ocorreram durante períodos chuvosos, destacando a umidade como um fator ambiental chave para a maturação de peritécios e esporodóquios e para a liberação dos esporos. A maior capacidade de liberação de esporos da ‘Gala’ em todas as condições, indica que esta cultivar pode atuar como um recurso regional de inóculo em áreas onde o CE é endêmico. Esses resultados reforçam a necessidade de estratégias aprimoradas de manejo do CE, particularmente em relação ao manuseio de resíduos de poda. A persistência de inóculo viável em tecidos sintomáticos e assintomáticos, mesmo após a trituração, demonstra que a destruição ou remoção de resíduos é essencial para reduzir a pressão da doença e limitar a disseminação do patógeno dentro e entre pomares.
Para mais detalhes, consulte o artigo original
PEREIRA, M. F. G.; RUFATO, D. P.; RUFATO, L.; CASA, R. T.; SILVA, F. N.; MIQUELOTO, T.; PINTO, F. A. M. F.; ARAUJO L.; BOGO, A. Temporal dynamics of Neonectria ditissima spore release from whole and shredded branches of gala and fuji apple cultivars. Journal of Phytopathology, v. 174, p. 1-11, 2026.
In: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jph.70246?af=R
Figura 1- Número de ascósporos e conídios de Neonectria ditissima liberados de ramos inteiros (A e B) e triturados (C e D), sintomáticos (A e C) e assintomáticos (B e D) das cultivares Fuji e Gala durante período de avaliação de julho de 2023 a junho de 2024. Legenda: WSB: ramos sintomáticos inteiros; WSB: ramos assintomáticos inteiros; SSB: Ramos sintomáticos triturados; SAB: ramos assintomáticos triturados.
Referências
ARAUJO, L., PINTO, F. A., DE ANDRADE, C. C., & DUARTE, V. (2021). Viability and release of Neonectria ditissima ascospores on apple fruit in Brazil. Plant Pathology, 71(3), 654-667.
ARAUJO, L.; PINTO, F. A. M. F. (2022) Neonectria ditissima spore release in apple plants and detached branches in Brazil. Journal of Plant Pathology, 104(4):1283-1289. ARAÚJO, L.; PINTO, F. A. M. F.; NOGUEIRA, P. H. S.; LACONSKI, J. M. O. (2023) Progression of European canker and wound types favoring Neonectria ditissima infection in apple trees of different ages in Brazil. Tropical Plant Pathology, 48:73-78.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao CNPq e à Fapesc pelo suporte financeiro para realização dos estudos. Aos técnicos da Epagri Iran Souza Oliveira e Arthur Oliveira Souza pelo suporte técnico.
Marilia Feliciano Goulart Pereira1, Daiana Petry Rufato1, Leo Rufato1, Ricardo Trezzi Casa1, Fábio Nascimento da Silva1, Amauri Bogo1, Felipe A. Moretti F. Pinto2, Tiago Miqueloto2, Leonardo Araujo2
1 UDESC, Centro de Ciências Agroveterinárias
2Epagri, Estação Experimental de São Joaquim
Informações: leonardoaraujo@epagri.sc.gov.br; telefone: 49 – 3233-8438; 99803-1235
Apoio:









