Manejo da macieira no período de pós-colheita
Introdução
O manejo da macieira (Malus domestica Borkh.) no período de pós-colheita é uma etapa estratégica para a sustentabilidade produtiva dos pomares, pois influencia diretamente a sanidade das plantas, a qualidade das gemas e flores do ciclo seguinte e o equilíbrio vegetativo–reprodutivo. Práticas como poda verde, controle do crescimento vegetativo, estímulo à maturação dos ramos, manejo da senescência foliar e nutrição pós-colheita têm sido apontadas como determinantes para a manutenção da produtividade e qualidade dos frutos ao longo dos anos.
A abertura do dossel promove maior entrada de luz e melhor aeração, fatores fundamentais para reduzir a umidade interna da copa e, consequentemente, a incidência de doenças fúngicas. Estudos demonstram que a poda verde melhora a distribuição de luz no interior da copa, favorecendo a diferenciação e a qualidade das gemas florais para o ciclo seguinte e a maturação dos ramos. Além disso, a maior incidência luminosa está associada à melhoria da coloração e da qualidade dos frutos, bem como à redução de distúrbios fisiológicos, como o bitter pit (Guerra & Casquero, 2010; Laubscher, 2022). Do ponto de vista fisiológico, a poda verde reduz a dominância apical e redistribui os fotoassimilados, permitindo que a planta direcione recursos para gemas e ramos produtivos.
A redução do crescimento vegetativo excessivo no final do ciclo favorece a lignificação, permitindo que os tecidos completem seu desenvolvimento estrutural. Ramos imaturos, por outro lado, tendem a apresentar gemas de menor qualidade e maior suscetibilidade a danos por frio. Assim, práticas que favoreçam a maturação dos ramos têm impacto direto na uniformidade de brotação e na qualidade floral no ciclo subsequente. A maturação adequada dos ramos após a colheita é essencial para garantir boa brotação e qualidade das flores na primavera seguinte.
A paralisação do crescimento vegetativo após a colheita é um dos principais objetivos do manejo pós-colheita em macieiras. O crescimento excessivo nesse período compete com a formação de reservas e com a diferenciação de gemas florais.
A aplicação de redutores de crescimento, como a proexadiona-cálcica, tem sido utilizada para limitar o alongamento dos ramos, reduzindo a necessidade de podas mais severas. Esses reguladores atuam inibindo a biossíntese de giberelinas, promovendo plantas mais compactas e com melhor equilíbrio vegetativo.
Além disso, produtos à base de cobre, tradicionalmente utilizados no manejo fitossanitário, também podem contribuir para a redução do crescimento vegetativo tardio. O menor vigor observado após essas aplicações facilita o manejo do pomar e contribui para uma poda de inverno menos intensa.
A senescência foliar é um processo fisiológico natural que marca o encerramento do ciclo vegetativo da macieira. Induzir ou uniformizar esse processo pode ser benéfico para a redistribuição de nutrientes e para a formação de reservas nos órgãos perenes da planta.
Estudos indicam que a senescência controlada das folhas favorece a remobilização de nitrogênio e carboidratos das folhas para ramos, tronco e raízes, contribuindo para o vigor inicial da planta na brotação seguinte (Cheng & Robinson, 2004). Diferentes produtos têm sido estudados com o objetivo de acelerar ou uniformizar a senescência foliar, embora os resultados ainda sejam variáveis.
Os resultados apresentados na Tabela 1 indicam que os tratamentos avaliados exerceram efeitos distintos sobre a queda de folhas da macieira ‘Eva’ no ciclo 2024/25. Aos 7 dias após a aplicação (DAA), não houve diferença estatística significativa entre os tratamentos, evidenciando que, em curto prazo, a resposta fisiológica das plantas à maioria dos produtos ainda era limitada. No entanto, aos 15 DAA observaram-se diferenças claras, com destaque para os tratamentos à base de sulfato de cobre + óleo mineral, ácido fosfórico e ureia, que promoveram maiores percentuais de queda de folhas em comparação à testemunha. Consequentemente, esses tratamentos resultaram em menor porcentagem de folhas remanescentes, sendo o sulfato de cobre + óleo mineral o mais eficiente, com apenas 14,3% de folhas restantes, enquanto a testemunha manteve 60,5% da folhagem.
Tabela 1. Efeito de diferentes tratamentos químicos na indução da queda de folhas da macieira ‘Eva’ no ciclo 2024/25, em Fraiburgo, SC
Destaca-se ainda que não foram observados problemas de abortamento de gemas florais na cultivar ‘Eva’ no ciclo seguinte, indicando que os tratamentos não comprometeram a floração. Ao contrário, o tratamento com ureia apresentou uma florada visualmente mais intensa e uniforme, sugerindo um possível efeito positivo tanto na indução da senescência quanto na nutrição nitrogenada, o que reforça a necessidade de novos estudos para confirmar esses resultados em diferentes condições climáticas. De modo geral, a indução da senescência deve ser cuidadosamente planejada para não reduzir excessivamente o período fotossintético pós-colheita, o qual é crucial para o acúmulo de reservas energéticas. O estudo deve ser repetido, uma vez que logo após a última avaliação ocorreu uma geada no pomar, a qual provocou a queda total das folhas e impediu o acompanhamento da evolução dos tratamentos por um período mais prolongado.
A nutrição pós-colheita desempenha papel fundamental na reposição de nutrientes exportados pelos frutos e na formação de reservas de carboidratos e nitrogênio. Essas reservas são determinantes para o crescimento inicial, a brotação e a floração no ciclo seguinte.
Estudos clássicos demonstram que tanto o nitrogênio quanto os carboidratos acumulados no outono são utilizados intensamente no início da primavera, antes que a fotossíntese e a absorção radicular se tornem plenamente ativas (Cheng et al., 2004). Assim, a adubação pós-colheita, seja via solo ou foliar, pode contribuir significativamente para melhorar o desempenho produtivo da macieira.
Apesar de sua importância, ainda há lacunas no conhecimento sobre doses, fontes e épocas ideais de aplicação de nutrientes no período pós-colheita. Novos estudos são necessários para compreender melhor como a adubação pós-colheita pode maximizar o acúmulo de reservas e, consequentemente, melhorar a qualidade das gemas, flores e frutos.
O manejo da macieira em pós-colheita é um conjunto de práticas interligadas que visam garantir o equilíbrio fisiológico da planta e a sustentabilidade do pomar. A poda verde, o controle do crescimento vegetativo, a maturação dos ramos, a senescência foliar e a nutrição adequada contribuem de forma integrada para a qualidade das gemas e o sucesso produtivo do ciclo seguinte.
A adoção dessas práticas deve considerar as condições locais e o sistema de produção, sendo fundamental o avanço de pesquisas que aprofundem o entendimento dos processos fisiológicos envolvidos no pós-colheita da macieira, principalmente em condições de clima ameno.
Referências
Guerra, M.; Casquero, P. A. (2010). Summer pruning: an ecological alternative to postharvest calcium treatment to improve storability of high quality apple cv. ‘Reinette du Canada’. Food Science and Technology International. https://scispace.com/papers/summer-pruning-an-ecological-alternative-to-postharvest-115kfllbu9
Laubscher, S. (2022). Effect of Sustainable Preharvest and Postharvest Techniques on Quality and Storability of High-Acidity ‘Reinette du Canada’ Apple. Horticulturae. https://scispace.com/papers/effect-of-sustainable-preharvest-and-postharvest-techniques-2uvzhqco
Cheng, L.; Robinson, T. L. (2004). Management of Nitrogen and Carbohydrate Reserves to Improve Growth and Yield of Apple Trees. https://scispace.com/papers/management-of-nitrogen-and-carbohydrate-reserves-to-improve-ae7h8bhr62
Everlan Fagundes1; Ronaldo Lara dos Santos1; José Luiz Petri2
1Pesquisador Scienfruti Pesquisas LTDA – Fraiburgo -SC;
2Professor UNIARP – Curso de Agronomia – Fruticultura.
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