31 mar

Seminário Cancros dos Ramos da Macieira

O Seminário sobre cancros dos ramos da macieira promovido pelos pesquisadores da Proterra e da UCS teve por objetivo atualizar e discutir com o setor produtivo a importância crescente que tem assumido o cancro Europeu das pomáceas no RS, além de informar sobre uma doença emergente em vários países produtores de maçãs: a morte dos ramos e/ou a morte descendente das pomáceas causadas principalmente pelos fungos do grupo das Botryosphaeriaceae. As duas doenças diminuem a produtividade dos pomares e causam a morte precoce das plantas. Nosso grupo decidiu convidar dois especialistas chilenos que possuem pesquisas nas áreas alvo desse Seminário, visando enriquecer a discussão com outras experiências.

Assim, os profesores da Facultade de Agronomia da Universidade de Talca, Dr Mauricio A. Lolas e Dr Gonzalo Diaz apresentaram a experiência deles no Chile, com ênfase nas características e controle do Cancro europeu e cancros por Botryosphaeriaceae nas fruteiras.

Apresentamos a seguir os resumos das palestras que foram apresentadas em 24/03 no Seminário sobre cancros.

 

Palestra 1. O cancro europeu da macieira (Neonectria ditissima): biología, epidemiologia e manejo nos sistemas produtivos das pomáceas. Mauricio A. Lolas, Ing. Agr. M.S., Ph.D., Facultad de Ciencias Agrarias, Universidad de Talca. mlolas@utalca.cl

O cancro europeu da macieira, causado pelo fungo Neonectria ditissima, é um patógeno do lenho, com ampla distribuição nas regiões temperadas do mundo e nos últimos anos tem se mostrado importante na América do Sul. Mesmo considerada doença importante na Europa, Nova Zelândia e América do Norte, a sua  constatação no Chile e os relatos mais recentes no Brasil estabelecem novos desafios para a produção de pomáceas. O patógeno infecta principalmente macieira e Pereira, produz cancros em ramos novos, ramos principais e tronco, reduzindo a produtividade e comprometendo a vida útil das plantas. Além disso, pode causar podridão das maçãs, incidindo principalmente na região calicinar. A doença se caracteriza pela relação estreita entre clima úmido e temperado e epidemias severas. A chuva tem um papel fundamental na liberação e dispersão de inóculo. Nesse Seminário, foram descritos os aspectos mais importantes da biologia e da epidemiologia de N. ditissima, tais como as fontes de inóculo, os periodos críticos da infecção e os tecidos das plantas que são mais susetíveis à infecção. Na ocasião, foram apresentados resultados de investigação no Chile, a importancia das cicatrizes foliares como sítios de infecção pelo patógeno e a dinámica da dispersão dos conídios nos ramos novos. Serão discutidas as estratégias de manejo da doença inseridas na integração de medidas de controle cultural, químico e biológico, dando ênfase às medidas profiláticas, a remoção dos cancros e a proteção dos tecidos suscetíveis durante os periodos de infecção. Em consideração a expansão geográfica do patógeno – que tem sido verificada – e as condições favoráveis presentes nas regiões produtoras de pomáceas na América do Sul, é necessário conhecer sua biologia e manejo para evitar seu impacto e fortalecer as estratégias de controle.

Palestra 2. Espécies de Botryosphaeriaceae associadas aos cancros e a morte descendente das macieiras: Etiologia, epidemiologia e controle no Chile. Gonzalo Díaz Ulloa, Profesor asociado. Facultad de Ciencias Agrarias, Universidad de Talca, Talca, Región del Maule, Chile. E-mail: g.diaz@utalca.cl

Em anos recentes, os cancros e a morte descendente causadas por espécies de Botryosphaeriaceae têm mostrado um aumento marcante nos pomares de macieiras da Região Central do Chile. O resultado de uma amostragem feita em 34 locais mostrou a presença de Diplodia mutilaDiplodia seriataLasiodiplodia theobromae e Neofusicoccum arbuti como as espécies associadas aos sintomas. As duas primeiras foram detectadas pela primeira vez na macieira no Chile e N. arbuti constitui o primeiro relato no mundo dessa espécie como patógeno da macieira. Todas as espécies citadas foram patogênicas na macieira, nogueira e videira, sendo N. arbuti a mais virulenta. Ações de pesquisa conduzidas para verificar a suscetibilidade dos cortes de poda às infecções constataram que os ferimentos são mais suscetíveis até os 15 dias após a poda e ela diminui com o passar do tempo. Se observou também que as feridas de poda feitas em junho aumentam a infecção quando comparadas com as de agosto. Esse fato se atribuí a maior liberação de conídios em agosto pela maior frequência de chuvas (70 e 86%). Para verificar opções de controle desses patógenos se avaliaram fungicidas utilizados em pulverizações após a poda das macieiras.  Os ingredientes ativos benomyl, tebuconazole, thiophanate-methyl, combinações de boscalid + pyraclostrobin e fluxapyroxad + pyraclostrobin, entre outros, reduziram significativamente as infecções, alcançando eficácias entre 47 e 76%, constituindo-se a primera opção no Chile de controle químico de Botryosphaeriaceae em macieiras. Os estudos apresentam informações sobre a diversidade de patógenos presentes no país e contribuem para esclarecer os fatores epidemiológicos que condicionam as infecções e definem as ferramentas químicas disponíveis para elaborar um manejo eficiente dos cancros e o declínio das macieiras.

Palestra 3. Cancro europeu das pomáceas: Situação Atual

Murilo César dos Santos, Dr., Universidade de Caxias do Sul (UCS) mcsantos3@ucs.br

 

O cancro europeu das pomáceas, causado por Neonectria ditissima, foi identificado pela primeira vez no Brasil em 2002, no município de Vacaria, RS, fato que mobilizou os órgãos competentes para a erradicação de plantas sintomáticas. Entretanto, em 2011 ocorreram novas detecções da doença em pomares nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, levando os órgãos fiscalizadores a desenvolverem um plano de contenção e pesquisa. Como resultado, em 2013 foi publicada a Instrução Normativa nº 20, que instituiu o Certificado Fitossanitário de Origem (CFO) e a Permissão de Trânsito de Vegetais (PTV). Posteriormente, em 2014, a Instrução Normativa nº 12 classificou a praga como quarentenária presente nos três principais estados produtores de maçã. Levantamentos recentes realizados pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI) indicam aumento na incidência da doença no estado do Rio Grande do Sul, com valores de 3,02%, 4,50% e 5,47% para as safras de 2023, 2024 e 2025, respectivamente. No município de Vacaria, maior produtor do estado, observa-se tendência semelhante, com incidências de 11,48%, 13,46% e 14,06% nos mesmos anos. Nos municípios dos Campos de Cima da Serra, Bom Jesus, São José dos Ausentes e Campestre da Serra também apresentam aumento da incidência, enquanto Jaquirana, Cambará do Sul, São Marcos e Lagoa Vermelha demonstram tendência de redução no período avaliado. Na região da Serra Gaúcha destacam-se reduções da doença em Caxias do Sul, São Marcos e Nova Pádua. Municípios como Ipê, Antônio Prado, Farroupilha, Canela e Nova Roma do Sul apresentam incidência inferior a 0,18%, enquanto Monte Alegre e Bento Gonçalves registraram aumento da doença. A infecção em pomares de macieira pode ocorrer ao longo de todo o ano no Brasil, sendo favorecida por condições climáticas específicas, como a ocorrência de pelo menos 30% dos dias do mês com temperaturas entre 11 e 16 °C por mais de 8 horas diárias, associadas à frequência de chuvas e à presença de ferimentos provocados pela queda de folhas, práticas de poda e colheita. O manejo da doença baseia-se na adoção de medidas integradas, incluindo a remoção de ramos infectados, proteção das plantas com fungicidas durante o período de queda de folhas, proteção dos cortes de poda e eliminação de restos culturais ao final da safra.

 

Palestra 4. Características e controle do Cancro europeu das pomáceas (Neonectria ditissima) e dos cancros e morte descendente das macieiras na região de Vacaria-RS

Rosa Maria Valdebenito-Sanhueza e Vinícius Adão Bartnicki

O cancro Europeu se estabeleceu inicialmente em Vacaria nos ciclos 2010 a 2012 e, mesmo com o esforço de produtores, pesquisadores e técnicos do setor a doença continua presente e os danos aumentam. O patógeno está presente em quase todas as unidades produtivas de macieiras dos 3 estados produtores. As condições climáticas adequadas contribuem para essa situação, uma vez que fortalecem as epidemias e a presença constante do patógeno nos pomares.  Os principais locais sujeitos a infecção das plantas são as feridas de poda, as da abscisão das folhas – que têm duração variável – a ferida do pedúnculo da colheita das maçãs e a abertura calicinar. As fontes de inóculo estão ativos o ano todo e são cancros em ramos novos e maduros, ramos principais e no tronco e os frutos com podtidão calicinar. Não se encontram múmias nem podridão de frutos maduros. Os fungicidas recomendados são fosethil- Al, tebuconazole, clorotalonil, ditianon e fontes de cobre em doses baixas e com uso alternado com outros princípios ativos. Maior investimento em pesquisa, registro de outros ingredientes ativos para uso na primavera e a promoção mais frequente de treinamentos no campo para diminuir a presença desse patógeno na região Sul devem ser solicitados em caráter de urgência.

Observações de campo a partir de 2020, na região de Vacaria e em outros locais, têm constatado em pomares novos da cv Eva e outras cvs e em pomares maiores de 10 anos a ocorrência de cancros nos ramos principais e a morte descendente das plantas, fato que motivou a informação aos produtores nesse Seminário. É constatado também que ramos com cancros por N. ditissima são frequentemente colonizados com fungos do grupo das Botryopsphaeriaceae, sendo que esse grupo de fungo causa cancros e podridão das maçãs. Quando comparados esses sintomas com os do Cancro papel – que estava presente no início do estabelecimento dos pomares em Vacaria – são diferentes, pois não possuem a característica do ‘papel’. Esse tipo de doença tem causado danos severos em outros países de America do Sul e na Europa, como epidemias citadas na Itália. Nas amostras estudadas foi identificado B. dothidea. Para esse patógeno são recomendadas medidas de profilaxia, tais como remoção de múmias e de ramos podados, proteção das feridas de poda e uso de pulverizações com fungicidas para proteção das frutas. Pesquisas mais abrangentes deverão determinar os fatores associados e os métodos adequados de controle.

 

Rosa Maria Valdebenito-Sanhueza

Murilo César dos Santos

Mauricio A. Lolas

Gonzalo Díaz Ulloa

Vinícius Adão Bartnicki

 

 

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