Boletim técnico lançado pela Epagri atualiza teores críticos de nutrientes no solo, nas folhas e em frutos de macieira

O recente boletim técnico intitulado “Teores críticos e faixas de suficiência de nutrientes no solo, nas folhas e em frutos de macieira em Santa Catarina”, escrito por pesquisadores de diferentes instituições, como Epagri, Ufsm e Ufsc, sintetiza novas informações sobre a interpretação dos teores de nutrientes no solo, em folhas e frutos de macieiras cultivadas no estado de Santa Catarina, mas que também podem ser utilizados por técnicos e produtores do Rio Grande do Sul. Destaca-se que este documento considera informações coletadas em mais de 20 safras comerciais de maçã, com base essencialmente nos cultivares Gala e Fuji. Igualmente, consideram-se as regiões de produção, com informações específicas para as duas principais regiões do estado, Meio-Oeste e Planalto Sul.

Em linhas gerais, o boletim descreve inicialmente a importância da definição de teores críticos e faixas adequadas de nutrientes no solo e nas plantas, bem como os principais métodos para obtenção destes parâmetros. Na sequência, são apresentados os dados e as respectivas avaliações realizadas, bem como os valores de referencia obtidos para nutrientes no solo, nas folhas e nos frutos.

Com o intuito de sintetizar as principais informações disponibilizadas no boletim, o presente artigo apresentará a seguir: panorama da safra 2025/2026 em Santa Catarina, teores de referência em folhas e frutos dos cultivares Gala e Fuji e níveis críticos de nutrientes nos solos.

Como foi a safra 2025/2026 e quais as características das regiões produtoras em SC?

De acordo com os dados divulgados no site Infoagro (https://www.infoagro.sc.gov.br/safra/safras/estimativa-de-safras-pc/), coordenado pelo Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa), o estado catarinense cultivou em torno de 7552 hectares de Gala e 9187 hectares de Fuji. Como resultado, foram produzidos 301393 e 370070 toneladas do fruto para Gala e Fuji, respectivamente.

As duas principais regiões produtoras, Meio-Oeste e Planalto Sul, diferenciam-se principalmente em termos de clima e de solo. Enquanto a primeira possui altitudes próximas a 1000 metros e solos profundos e argilosos, a segunda possui altitudes maiores, próximas a 1400 metros, e solos pouco profundos e pedregosos. Tais condições exigem manejo diferenciado, inclusive quanto aos aspectos nutricionais.

De acordo com o boletim nº 231, quais os níveis de referência para folhas e frutos de Gala e Fuji?

No presente boletim, foram considerados os métodos DRIS (Diagnosis and Recommendation Integrated System) e CND (Compositional Nutrient Diagnosis) para a definição dos níveis ótimos em folhas e frutos. Diferentemente do método tradicional, que define os valores ideais considerando cada nutriente separadamente, o DRIS e o CND consideram a interação entre diferentes elementos essenciais, em comparações binárias ou múltiplas, respectivamente.

Os teores adequados de nutrientes nas folhas de pomares em produção na região de Fraiburgo, no Meio-Oeste, foram definidos para os cultivares Gala e Fuji. Para os nutrientes N, P, K, Ca e Mg, considerando os métodos DRIS e CND, os níveis críticos foram de 23,4 e 24,3, 1,7 e 1,7, 12,7 e 13,6, 12,6 e 13,1 e 3,6 e 3,5 g kg-1 para o cultivar Gala, e 24,8 e 26,4, 1,8 e 1,9, 11,8 e 12,9, 13,8 e 14,0 e 3,4 e 3,2 g kg-1 para o cultivar Fuji, respectivamente.

Quando se considera a região de São Joaquim, Planalto Sul, também há diferenciação dos níveis críticos em função do vigor dos porta-enxertos, especificamente para o cultivar Fuji. Para esta, e considerando apenas o método CND, os teores críticos de N, P, K, Ca e Mg foram: 25,2, 1,9, 13,7, 17,5 e 2,9 g kg-1 para porta-enxertos de vigor baixo (a exemplo de CG 202 e EM 26), 18,4, 2,2, 12,2, 18,5 e 2,8 g kg-1 para porta-enxertos de vigor médio (a exemplo de Maruba/EM9) e 24,8, 1,9, 12,4, 14,1 e 3,0 g kg-1 para porta-enxertos de vigor alto (Maruba), respectivamente. Já para Gala, independentemente do porta-enxerto, os níveis críticos de N, P, K, Ca e Mg, considerando apenas o método CND, foram de 22,5, 1,9, 14,1, 16,0 e 3,2 g kg-1, respectivamente.

Para as avaliações realizadas na polpa dos frutos, também foram determinados teores críticos e faixas de suficiência. Em geral, os valores determinados variaram em comparação a valores previamente indicados na literatura, tanto para mais como para menos. Assim, de acordo com o boletim técnico publicado, os teores críticos para a região de Fraiburgo de N, P, K, Ca e Mg e relações N/Ca, K/Ca e K+Mg/Ca são de 335, 170, 1050, 42 e 52 mg dm-3 e 8 , 22 e 24, respectivamente; já para a região de São Joaquim, tais valores foram de 350, 125, 1000, 45 e 50 mg dm-3, e 8, 22 e 24, respectivamente.

 

E para os solos cultivados, quais os valores de referência de nutrientes indicados pelo novo boletim?

O método utilizado para a determinação dos níveis críticos foi o da Linha de Fronteira. Neste, da mesma forma que ocorre para a determinação nos métodos tradicionais, relacionam-se os teores de determinado elemento no solo (eixo x) com a produtividade (eixo y). Porém, com base num elevado conjunto de dados, busca-se traçar uma linha na borda superior dos dados e, por meio de modelos matemáticos, definir o nível do nutriente no solo que permite alcançar o máximo retorno da cultura de interesse.

No solo foram observadas diferenças importantes nos níveis críticos em comparação aos valores oficialmente recomendados pela Comissão de Química e Fertilidade do Solo dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (CQFS – RS/SC), cujo manual atual foi publicado em 2016. Há também diferenciação em relação às duas regiões produtoras, Meio-Oeste e Planalto Sul.

Os teores críticos determinados para P nos solos das regiões Meio-Oeste e Planalto Sul foram 24 e 25 mg dm-3, respectivamente, enquanto a CQFS – RS/SC, indica quais tais valores seriam de 12,1 a 24,0, de acordo com o teor de argila. Já para K, para essas duas regiões, os novos níveis adequados seriam de 130 e 175 mg dm-3, respectivamente, com valores indicados pela CQFS – RS/SC variando de 121 a 240 mg dm-3.

Para Ca e Mg a CQFS – RS/SC indica valores ideais de 4 e 1 cmolc dm-3, independentemente das características do solo, os quais são inferiores aos indicados no presente boletim. Para os solos das regiões Meio-Oeste e Planalto Sul, os níveis críticos de Ca foram de 9 e 14 cmolc dm-3, enquanto de Mg 3,5 e 2,5 cmolc dm-3, respectivamente. Apenas para a primeira região, na qual o município de Fraiburgo está abrangido, determinou-se o teor crítico de saturação por bases (V%) de 80%.

 

Considerações finais

O boletim técnico recentemente publicado busca trazer atualizações dos indicadores nutricionais em tecidos vegetais e nos solos cultivados com maçã nas duas principais regiões produtoras em Santa Catarina. Além da regionalização dos valores críticos e faixas de suficiência, as novas recomendações baseiam-se em metodologias modernas de avaliação dos dados, como o DRIS, o CND e a linha de fronteira.

As informações publicadas representam um avanço não só científico, mas também permitem melhorar o manejo nutricional dos pomares comerciais. Em especial para os agricultores, o maior equilíbrio dos nutrientes nos tecidos vegetais e no solo poderá gerar maior eficiência das fertilizações, aumentos em produtividade e, paralelamente, reduções nos custos de produção.

O boletim completo pode ser acessado gratuitamente no link: https://publicacoes.epagri.sc.gov.br/BT/article/view/2358

 

Gilmar Luiz Mumbach*

Leandro Hahn*

*Pesquisadores – fertilidade do solo e nutrição de plantas – Epagri

 

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