Tenacidade de fungicidas protetores e resistência à lavagem pela chuva

Introdução

A chuva é um dos principais fatores responsáveis pela redução da eficiência de fungicidas protetores. Entretanto, embora frequentemente agrupados como fungicidas de contato, diferentes ingredientes ativos apresentam comportamentos distintos quanto à permanência sobre a superfície foliar após eventos de precipitação.

A resistência à lavagem pela chuva, frequentemente denominada rainfastness, está relacionada à capacidade do fungicida permanecer aderido à superfície vegetal após a aplicação. Essa característica é influenciada por diversos fatores, incluindo solubilidade em água, afinidade pela cera foliar, formulação comercial, características do depósito formado sobre a superfície da folha, intensidade da precipitação e intervalo entre a aplicação e a ocorrência da chuva.

Essa constatação quebra um mito bastante comum no campo de que todos os fungicidas de contato se comportam da mesma forma após eventos de chuva.

 

O conceito de tenacidade

A tenacidade não deve ser interpretada como uma propriedade exclusiva da molécula, mas como o resultado da interação entre características físico-químicas do ingrediente ativo, da formulação e das condições ambientais.

De forma conceitual, a tenacidade pode ser representada como:

Tenacidade= f(LogKow, Solubilidade, Formulação, Depósito, Precipitação) onde: Log Kow representa a afinidade da molécula por superfícies lipofílicas, como a cera foliar; Solubilidade em água determina a tendência de dissolução durante a chuva; Formulação influencia cobertura, aderência e retenção do depósito; Depósito refere-se às características físicas e químicas do resíduo formado após a secagem da pulverização e Precipitação engloba quantidade, intensidade, duração e frequência das chuvas.

Assim, a resistência à lavagem não deve ser interpretada como consequência exclusiva do Log Kow ou da solubilidade em água, mas sim como uma propriedade emergente da interação entre molécula, formulação, depósito e ambiente.

 

Por que alguns fungicidas resistem mais à chuva?

Em geral, fluazinam, ditianona e clorotalonil apresentam maior tenacidade por possuírem baixa solubilidade e elevada estabilidade sobre a superfície foliar. O hidróxido de cobre também apresenta boa persistência, mas parte do depósito pode ser removida mecanicamente pela chuva. A captana apresenta comportamento intermediário, variando conforme a formulação. Já o mancozebe tende a ser mais suscetível à lavagem, especialmente sob chuvas frequentes ou intensas (Figura 1).

 

Tendência geral de tenacidade à chuva (qualitativa):

 

Fluazinam ≈ Ditianona > Clorotalonil > Hidróxido de cobre ≈ Captana > Mancozebe (Figura 1).

 

Considerações para anos chuvosos

Em anos chuvosos, a tenacidade dos fungicidas torna-se uma característica importante no manejo fitossanitário. Embora não determine isoladamente a superioridade de um produto, maior resistência à lavagem pode proporcionar proteção mais estável entre aplicações. Assim, além da eficiência biológica, espectro de controle, risco de resistência e custo, a tenacidade deve ser considerada como mais um critério técnico na escolha e posicionamento dos fungicidas protetores.

Figura 1. Comparação qualitativa da tenacidade de fungicidas protetores frente à lavagem pela chuva. A classificação foi elaborada com base em propriedades físico-químicas das moléculas, formulações comerciais e informações disponíveis na literatura sobre rainfastness, não representando valores absolutos de retenção após precipitação.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HUNSCHE, M. Rainfastness of selected agrochemicals as affected by leaf surface characteristics and environmental factors.115p. 2006.

VICENT, A. et al. Rain fastness and persistence of fungicides for control of Alternaria brown spot of citrus. Plant Disease, v. 91, p. 393–399, 2007.

TÖFOLI, J. G. et al. Effect of simulated rain on the efficiency of fungicides in potato late and early blight control. Semina: Ciências Agrárias, v.35, n.6, p. 2977–2990. 2014.

CHATZIDIMOPOULOS, M. et al. Efficient control of apple scab with targeted spray applications. Agronomy, v. 10, n.2, p. 217, 2020.

 

Claudio Ogoshi1; Mariana Rosa Wappler2; Rafaela Walesko Elias2

 

1Pesquisador Estação Experimental de Caçador EPAGRI

2Bolsista FAPESC Estação Experimental de Caçador EPAGRI

Apoio:

Comments are closed.