13 jan

Características físico-químicas de maçãs SCS425 Luiza em comparação com os frutos da cultivar Galaxy

O cultivo da macieira remonta a séculos antes de Cristo (Jupiter et al., 1999). Porém, as primeiras cultivares selecionadas para fins comerciais datam de meados do século XIX (Camilo & Denardi, 2002). Dentre estas cultivares, as que alcançaram maior êxito até a atualidade – mais de um século e meio após a lançamento como novas cultivares – são a Delicious (epiderme vermelha) e a Golden Delicious (epiderme amarela). Porém, estas cultivares não foram obtidas por hibridações controladas e sim por viveiristas americanos produtores de mudas comerciais para cultivo em fundo de quintal (Büttner et al., 2000). Estes viveiristas, que usavam como portaenxertos plântulas procedentes de sementes (seedlings), ao identificarem plântulas que lhes atraíam a atenção, as cultivaram até iniciarem a produção para verificar que frutos produziam. Assim surgiram as primeiras cultivares de macieira de bom sabor para a época e, consequentemente, bom potencial comercial. Com o passar dos anos, a macieira se tornou uma importante opção para produção comercial de maçãs mundo afora, sendo hoje a 4ª fruta mais produzida (Peil, et al., 2011). Assim, estas duas cultivares rapidamente se tornaram líderes mundiais de produção comercial e até hoje continuam importantes em alguns países como nos EUA e na Argentina (‘Delicious’ e seus clones mutantes) e na Itália (‘Golden Delicious’ e seus clones mutantes), dentre outros (O’Rourke at al., 2003; Sorrenti et al., 2012).

A redescoberta das Leis de Mendel no início do século XX possibilitou o ‘pontapé’ inicial na criação de novas cultivares de macieira por hibridação controlada (Camilo & Denardi, 2002). Assim surgiram as cultivares Fuji no Japão (parentais: Rall’s Janet x Delicious) e Gala na Nova Zelândia (parentais: Kidds Orange Red x Golden Delicious), que paulatinamente se tornaram as de maior crescimento mundial de produção a partir da década de 1990. Desde então estão substituindo gradativamente seus parentais ‘Delicious’ e ‘Golden Delicious’ e seus clones mutantes em termos mundiais. Como sabemos, isto ocorreu também no sul do Brasil, onde a ‘Delicious’ e a ‘Golden Delicious’ e seus clones mutantes foram os ‘carros chefe’ desde o início dos plantios até o final dos anos 1980 quando passaram a ser substituídas por ‘Gala’ e ‘Fuji’ e, mais recentemente, por clones mutantes de frutos mais coloridos como a ‘Fuji Suprema’ (Petri et al., 1997) e a Maxi Gala.

A cultivar SCS425 Luiza, criada pela Epagri, é descendente de segunda geração de ‘Fuji’ e de ‘Gala’, originada do cruzamento ‘Imperatriz’(♀) (‘Mollie’s Delicious’ x ‘Gala’) x ‘Baronesa’(♂) (‘Fuji’ x ‘Princesa’) (Denardi et al., 2023). Os frutos amadurecem na data da colheita da ‘Gala’, a planta possui menos requerimento de frio hibernal (estima-se em 600-650 horas ≤ 7,2ºC) que garante melhor adaptação nas condições climáticas de cultivo no Sul do Brasil, alta resistência à mancha foliar de glomerella (Colletotrichum spp.), rápido início de produção após o plantio, alta frutificação efetiva natural, além de melhor capacidade de conservação dos frutos em pós-colheita, em comparação às maçãs Gala (Denardi, et al., 2019; Denardi et al., 2023).

Assim, nessa reportagem vamos enfatizar sobre as características físico-químicas e o potencial de conservação da ‘Luiza’ em comparação com as maçãs ‘Galaxy’, visto que as cultivares do grupo ‘Gala’ representam a maior proporção de maçãs produzidas no país e são as mais conhecidas pelos consumidores brasileiros.

Os dados médios apresentados se referem a análises físico-químicas realizadas durante o período de 2009/2010 a 2014/15. Reportam a qualidade de maçãs armazenadas por até 6 meses em câmaras de Atmosfera do Ambiente (AA – a 0,5 ± 0,5 °C,) e Atmosfera Controlada (AC – 1,5 kPa de O2 e 1,5 kPa de CO2), com e sem aplicação de 1-MCP (1-metilciclopropeno), e com os frutos pós-armazenagem submetidos a 7 dias de prateleira a ± 23ºC. Observou-se que as maçãs ‘Luiza’ armazenadas em câmaras de AA, respectivamente com e sem aplicação do 1-MCP, mantiveram melhor firmeza da polpa que a ‘Galaxy’ nas mesmas câmaras frias (Figura 1). Porém, aos 4 meses de câmara fria mais 7 dias de prateleira na condição de armazenagem em AA sem aplicação prévia de 1-MCP, a firmeza de polpa da ‘Luiza’ decaiu abaixo de 12 Lb. – limite tolerado para assegurar boa qualidade da polpa de maçãs precoces – (Dr. Argenta – informação pessoal). Isto evidencia que nenhuma das duas cultivares é capaz de manter a firmeza da polpa em níveis satisfatórios por 4 meses ou mais quando armazenadas em câmaras frias de Atmosfera Ambiente (AA) sem 1-MCP, principalmente a ‘Galaxy’. Ademais, observou-se que em câmaras de AC, a ‘Galaxy’ só manteve firmeza da polpa satisfatória por mais de 2 meses quando tratada previamente com 1-MCP (Figura 2), enquanto que para as maçãs ‘Luiza’ em AC foi observada boa firmeza de polpa (> 12Lb.) por todo o período de armazenagem, indiferente de aplicação ou não de 1-MCP. Isso evidencia a maior habilidade das maçãs ‘Luiza’ em manterem boa firmeza de polpa quando armazenadas por até 6 meses em AC, mesmo sem tratamento com 1-MCP.

Em termos de açúcares totais (ºBrix), nos frutos da cv. Luiza houve forte aumento e mais pronunciado que na cv. Galaxy até o quarto mês de armazenagem, tanto em AA com 1-MCP como em AC com e sem 1-MCP (Figura 3). Após 4 meses de armazenagem, indiferente do tipo de câmara fria, verificou-se redução dos açúcares totais nas frutas da ‘Luiza’, o que já era esperado. Já para as maçãs ‘Galaxy’, os teores de açúcares observados foram menores desde o momento da colheita até os 6 meses de armazenagem das frutas, indiferente do tipo de câmara e do tratamento com 1-MCP (Figura 3). Isto indica que a cv. Luiza se torna mais doce do que a cv. Galaxy até os 6 meses de armazenagem, principalmente em câmaras de AA com 1-MCP e AC com e sem o 1-MCP.

A relação açúcares/acidez, que indica o grau de doçura de maçãs, mostra que a cv. Luiza não

somente ganha mais em açúcares que a cv. Galaxy, mas que também perde mais em acidez ao longo da armazenagem. Fato que ocorre principalmente em câmaras de AA, mesmo com o 1-MCP (Tabela 1). Para fins de esclarecimento, em termos de doçura, maçãs com relação ‘açúcares/acidez’ abaixo de 30 podem ser consideradas ácidas; relação de 30 a 50, sabor equilibrado, e acima de 50, sabor doce. As relações da ‘Luiza’ nas diferentes câmaras frias (Tabela 1) ficam acima de 50, sendo por isto considerada bastante doce.

Pelo fato de as maçãs ‘Luiza’ serem de colheita precoce, por elas decrescerem a acidez e por apresentarem risco de desenvolvimento de escurecimento senescente na polpa após 6 meses de armazenagem em AC (Argenta et al., 2022), não é indicado armazena-las em câmaras frias por mais do que 6 meses.

O Projeto Sambóa, do grupo italiano Rivoira, inclui a cv. Luiza como componente desta Marca Comercial. Esse projeto considera como atributos importantes desta cultivar o sabor super doce e a textura extremamente crocante e suculenta da polpa das frutas, cuja característica de qualidade é uma tendência que agrada cada vez mais consumidores de maçãs, não somente na Europa, mas em todo o mundo.

 

Conclusões

  1. A cultivar de macieira SCS425 Luiza tem maior capacidade de conservação que a cv. Galaxy em câmara fria, tanto em Atmosfera Ambiente – AA – como em Atmosfera Controlada – AC – com e sem tratamento de 1-MCP.
  2. Em câmaras frias de AC a ‘Luiza’ se conserva bem por ao menos 6 meses, independentemente do tratamento com 1-MCP; porém se torna mais doce do que sua concorrente ‘Galaxy’, de mesma época de colheita e pode desenvolver escurecimento da polpa em AC.

 

Agradecimentos

Os autores desta matéria agradecem ao Dr. Argenta e equipe pelas análises físico-químicas realizadas no laboratório de pós-colheita da Estação Experimental de Caçador, Epagri.

 

Argenta, L.C.; Anese, R.O.; Thewes, F.R.; Wood, R.M.; Nesi, C.N. & Neuwald, D.A. (2022). Maintenance of ‘Luiza’ apple fruit quality as affected by postharvest practices. Rev. Bras. Frutic., v. 44, n. 4: p.1-16. (e-905)

Büttner, R., Fischer, M., Forsline, P.L. et al (2000a). Genebank work for preservation of the genetic diversity of apple. Acta Hort. 538:39–42

Camilo, A.P. & Denardi, F. (2002). Cultivares: Descrição e comportamento no sul do Brasil. In: A Cultura da Macieira, Florianópolis, 743 p.

Denardi, F.; Kvitschal, M.V.; Hawerroth, M.C. & Argenta, L.C. (2019). ‘SCS425 Luiza’: new apple cultivar with medium chilling requirement and resistant to glomerella leaf spot (colletotrichum spp.). Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal, v. 41, n. 1, p.1-7. (e-109)

Denardi, F.; Kvitschal, M.V.; & Petri, J.L. (2023). Cultivares de macieira desenvolvidas pela Epagri. Florianópolis: Epagri, 97 p. (Epagri. Boletim Técnico, 211).

Juniper, B.E.; Watkins, R. & Harris, S.A. (1999). The origin of the apple. Acta Hort. 484, p.27–33.

Peil, A.; Kellerhals, M.; Hofer, M. & Flachowsky, H. (2011). Apple Breeding – From the Origin to Genetic Engineering. Fruit, Vegetable and Cereals Science and Biotechnology, 5 (Special Issue 1), 118-138.

Petri, J.L.; Denardi, F.; Suzuki, A. (1997). Epagri 405-Fuji Suprema: Nova cultivar de macieira. Rev. Agrop. Catar., v.10, n.3. p.48-50.

O’Rourke, D.; Janick, J. & Sansavini, S. (2003).  Chronica Horticulturae. In: World Apple Cultivar Dynamics, ISHS, v.43, n.3, p.10-13.

Sorrenti, G.; Rombolà, A.D.; Garcea, G.; De Pieri, A.Z.; Porro, D.; Brunetto, D.P.; Miotto, A.; Schmitt, D.E. & Gatiboni, L.C. (2012). O cultivo da macieira na Itália: porta-enxertos, cultivares, adubação e irrigação. Revista Biotemas, v. 25, n. 4, p. 121-129.

 

Autores: Frederico Denardi 1/ & Marcus Vinicius Kvitschal 2/

1/ Eng. Agr. M.Sc. Frederico Denardi. (Pesquisador aposentado) Est. Exp. de Caçador, Epagri, SC

2/ Eng. Agr. D.S. Marcus Vinícius Kvitschal. Pesquisador – Est. Exp. de Caçador, Epagri, SC

 

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