As projeções do NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos) apontam que a probabilidade de um evento de El Niño de forte a muito forte intensidade se consolidar durante o período da primavera/verão de 2026/2027 é superior a 90%. No sul do Brasil em anos de El Niño, geralmente ocorrem altos volumes de chuva associados com temperaturas médias acima da média histórica. Tradicionalmente anos de El Niño são problemáticos em relação ao manejo das doenças, devido às falhas de manejo associadas aos eventos climáticos extremos e condições ambientais favoráveis aos patógenos de fruteiras de clima temperado. Nos últimos ciclos 2015/2016 e 2023/2024 com presença de El Niño foram identificados novos patógenos na cultura da macieira (Pseudomonas syringae) e pereira Pectobacterium carotovorum subsp. actinidiae) e registrados prejuízos associados epidemias fungicas nos pomares no Sul Brasil (Araujo et al. 2020a, b; 2024). Assim diante das dificuldades impostas pela condição climática abordaremos estratégias que deverão ser adotadas para manejar as doenças da macieira, tais como: redução de inóculo, uso do sistema de alertas e avisos da Epagri, aquisição de fungicidas de alta eficácia, rotação de princípios ativos e posicionamento dos produtos fitossanitários após períodos chuvosos de alta intensidade.
Dessa maneira, diante das condições ambientais que serão extremamente favoráveis na primavera/verão fruticultores deveriam ter focado em práticas de profilaxia para redução de inóculo no outono/inverno para maximizar o controle químico durante a safra. Vários patógenos da macieira podem sobreviver em folhas caídas sobre o solo, cancro, gemas e ramos dormentes, flores, hospedeiros alternativos e burrknots (Araujo et al., 2021a). Anualmente a Epagri monitora a ejeção de ascósporos de V. inaequalis em folhas de macieira mantidas em armadilhas e os dados demonstram que caso não seja realizado qualquer prática de profilaxia o fungo consegue sobreviver e disseminar seus esporos (em torno de sete meses) até que ocorra a decomposição destes tecidos entre dezembro e janeiro. Outros estudos conduzidos na Estação Experimental de São Joaquim (EESJ) da Epagri também comprovam que patógenos como Colletrotichum spp. e Marssonina spp. sobrevivem e produzem esporos em folhas até que ocorra a completa decomposição. Araujo et al. (2021b) & Araujo & Pinto (2022a) demonstraram que o fungo Neonectria ditissima pode sobreviver liberando esporos de 1,4 a 3 anos em frutos e ramos podados, respectivamente. Este aumento de inóculo nos pomares traz como consequência uma menor eficiência de diversos fungicidas, já que os fungicidas funcionam bem em condições de baixo inóculo, em contraste quando o inóculo é alto nos pomares a tendência dos fungicidas falharem em condições ambientais favoráveis é muito grande (Araujo et al., 2020). Em casa vegetação foi demonstrado que em condições de baixo inóculo, os fungicidas sítios-especificos usados para o manejo da sarna, mancha foliar de Glomerella (MFG), mancha foliar de Marssonina e podridão de cancro europeu alcançam alta eficiência (~92%). Porém, em áreas com alto inóculo, a eficiência de controle cai drasticamente (para 15% a 38%), aumentando o risco de falhas no controle da safra seguinte.
O Sistema de alerta e previsões para o controle das doenças da macieira no estado de Santa Catarina desenvolvido pela Epagri é uma ferramenta agrometeorológica que avalia modelos de favorabilidade para infecção dos principais patógenos da macieira. O objetivo principal é prever o risco de infecção por fungos nos pomares, orientando o fruticultor a realizar pulverizações de defensivos agrícolas de forma racional, preventiva ou curativa, apenas quando realmente necessário. Neste sistema os dados climáticos e dos modelos epidemiológicos das doenças são atualizados de hora em hora, permitindo assim verificar se uma situação de infecção ocorreu ou está em andamento, ou se a chuva registrada atingiu a lavagem de um fungicida protetor aplicado antes da chuva, bem como data para provável para aparecimento dos sintomas. Através da interpretação dos dados é possível monitorar quando as condições ambientais estão favoráveis a MFG. Também possibilita a correção de falhas de manejo em determinados períodos chuvosos com pulverizações de fungicidas no período de pré-sintoma da sarna da macieira. Os fungicidas recomendados para este tipo são os inibidores da síntese de ergosterol (IBEs), e dodine. Para calcular o período de pré-sintoma, basta verificar o dia previsto para o sintoma surgir e realizar o tratamento dois a três dias antes (Araujo et al. 2019) . Para mais detalhes consulte o site Agroconnect do Ciram/Epagri (http://ciram.epagri.sc.gov.br/agroconnect/) ou (https://ciram.epagri.sc.gov.br/Fito_Maca/), ou através do aplicativo da Epagri chamado ‘Epagri Mob’. O Epagri MOB está disponível para celulares IOS e Android para download aqui: https://www.epagri.sc.gov.br/index.php/solucoes/epagri-mob/. Lembramos que esta tecnologia (Agroconnect) é associada aos avisos fitossanitários que são alertas escritos pelos pesquisadores da Epagri enviados aos produtores e responsáveis técnicos, via diferentes meios de comunicação, informando sobre uma situação de risco de infecção por alguma doença e/ou a necessidade de intervenção e/ou tratamento fitossanitário dos pomares (Araujo et al., 2019).
Durante o ciclo da macieira é fundamental manter a cobertura vegetal com fungicidas antes da ocorrência das chuvas. Embora, em condições ambientais extremas como as que ocorrem durante o El Niño é comum ocorrerem falhas de manejo, sendo necessário realizar intervenções corretivas com fungicidas sítio-específicos nos pomares. Neste sentido alertamos fruticultores sobre a necessidade de rotação dos princípios ativos, bem como respeito ao número estabelecido para cada grupo químico (Santos et al., 2025), bem como utilização somente quando realmente necessário para evitar a seleção de populações resistentes de Venturia inaequalis aos fungicidas. Araujo et al. (2025a) demonstraram que o tempo de exposição de populações de V. inaequalis ao grupo químico pode alterar a eficácia de fungicidas frequentemente usados pelos fruticultores para controle da sarna da macieira. Em outro estudo complementar Araujo et al. (2025b) mostraram que outra população de V. inaequalis foi resistente a todas dosagens testadas dos fungicidas difenoconazol e pirimetanil em condições in vitro. Lembramos que os fungicidas Score® e Mythos® estão sendo usados para o controle da sarna desde 1980 e 1998, respectivamente. Assim, recomendamos o uso de fungicidas recentemente lançados no mercado a exemplo das quinolinas (Migiwa®) e carboxamidas (Excalia Max®, Mibelya®, Miravis®, Miravis Duo®, Orkestra® e Valpura®) nestes períodos críticos com muitos dias chuvosos e/ou volumosos, pois estes grupos químicos foram menos expostos às populações de V. inaequalis e apresentam altos índices de controle (IC) sobre a sarna. Além disso, estes novos fungicidas (carboxamidas e quinolinas) apresentam melhores IC em comparação aos IBEs e anilinopirimidinas, quando posicionados de forma curativa de 24 a 96 horas após o início da infecção de V. inaequalis.
Em contraste da sarna da macieira para MFG, atualmente não existem fungicidas sítio-específicos que apresentem altos IC para MFG quando posicionadas de forma curativa. Os fungicidas a base de tiofanato metílico, tebuconazol e estrobilurinas apresentam IC entre 50 e 70% sobre a severidade da MFG (sem eficácia sobre a incidência) quando utilizados 24 horas após o início da infecção de Colletotrichum spp. Outra alternativa, após longos períodos chuvosos é o uso de fosfitos que apresentam efeito sistêmico e apresentam IC entre 40 e 60% sobre a MFG (Araujo et al., 2010). Em relação aos fertilizantes foliares a base de ácido peracético a recomendação da pesquisa é utilizar estes produtos logo após a chuva, pois quando posicionados desta maneira podem reduzir a germinação de conídios de Colletotrichum spp (Araujo et al., 2023). Assim, o manejo da MFG é baseado principalmente no uso de fungicidas protetores que apresentam maior risco de falha de manejo em condições extremas. Algumas misturas de tanque com diferentes dosagens de fungicidas multissítio vêm sendo testados (Heidemann et al., 2026) visando um melhor controle da doença na EESJ da Epagri (Tabela 1).
Em relação às podridões carpelares e calicinares estas são associadas a diversos gêneros de fungos, dificultando o manejo durante a florada que é o estágio fenológico que ocorre a infecção destes tecidos da macieira. Assim, a diversificação dos grupos químicos durante a florada aumenta as chances de controle sobre estes patógenos. Diversos fungicidas (Miravis®, Mythos®, Miravis Duo®, Fegatex®, Orkestra®, Trifmine®, Dodex®, Score®, Approve®, Metiltiofan®, Cercobin®) tem ação sobre os patógenos associados a essas podridões, porém a eficiência dos produtos é variável de acordo com população de patógenos presentes nos pomares e a utilização dos produtos ao longo dos anos. Além disso, recomenda-se que os fruticultores utilizem, durante a floração produtos como fosfitos, Bacillus spp., bioestimulantes e indutores de resistência, os quais podem contribuir para redução da incidência desses patógenos. Geralmente estes produtos (fosfitos, Bacillus spp., bioestimulantes e indutores de resistência) apresentam IC intermediários, mas são sistêmicos, com ação inespecífica de controle e atuam em diversos processos vitais dos patógenos (baixo risco de resistência) (Araujo et al. 2025c).
Outras informações sobre o manejo das doenças da macieira durante este ciclo 2026/2027 serão repassadas para técnicos e fruticultores através dos avisos fitossanitários e/ou presencialmente com os pesquisadores da estação experimental de São Joaquim da Epagri.
Tabela 1 – Incidência (%) da mancha foliar de Glomerella (MFG) em folhas de mudas de macieira tratadas com diferentes misturas de tanque com e dosagens de fungicidas multissítio de forma preventiva (24 horas antes da inoculação com Colletotrichum chrysophilum).
Doses testadas para 100 L: Captan® (250, 375 e 500 mL), Frowncide500® (75, 88 e 100 mL), Delan® (50, 70 e 100 g), Bravonil Ultrex® (75, 112,5 e 150 g), Manzate WG® (350 g), Orkestra® (40 mL) e Miravis® (20 mL).
AGRADECIMENTOS: Os autores agradecem o auxílio técnico dos funcionários da Epagri: Iran Souza Oliveira e Arthur Oliveira Souza. Os autores agradecem ao CNPq e à FAPESC pelo suporte financeiro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1Leonardo Araujo, 1Felipe A. Moretti F. Pinto, 1Murielli Sabrina Gemeli Donadel Cornelli, 1Joice Crescencio Heidemann
1Epagri Estação Experimental de São Joaquim. Rua João Araújo Lima, 102, Jardim Caiçara, 88600-000, São Joaquim.
Informações: leonardoaraujo@epagri.sc.gov.br; telefone: 49 – 3233-8438; 99803-1235


