Anastrepha fraterculus (Wiedemann) (Diptera; Tephritidae), conhecida popularmente como mosca-das-frutas sul-americana, é uma das principais pragas da fruticultura brasileira. Os danos deste inseto são devido à oviposição, que resulta em perfurações na epiderme, o que pode causar o escurecimento e a morte de tecidos, além de servir de porta de entrada para microrganismos fitopatogênicos. As larvas também provocam danos, alimentam-se da polpa dos frutos, formam galerias e ocasionam a queda precoce dos mesmos. No sistema de produção convencional, a principal forma de controle de desta praga é por meio de pulverizações de inseticidas em cobertura total de pomares e pelo emprego de iscas tóxicas (Atrativos + inseticida). No Brasil, em sistemas orgânicos de produção, as práticas consistem no ensacamento de frutos, envelopamento e na captura massal com armadilhas, as quais demandam elevada mão de obra e alto custo, podendo inviabilizar a produção.
A exportação de maçã brasileira para o mercado europeu exige atenção redobrada dos produtores. A mudança de hábito do mercado consumidor de frutas tem exigido cada vez mais produtos cultivados seguindo preceitos de sustentabilidade ambiental e social e livres de resíduos químicos. Diversas substâncias autorizadas no Brasil são proibidas ou altamente restritas (Clorpirifos, Fenitrotiona, Malationa e Acetamiprido) na União Europeia (UE). Como o bloco adota o princípio da precaução e pratica a tolerância zero, reduzindo o Limite Máximo de Resíduos (LMR) para o nível de detecção de 0,01 mg/kg, o uso de muitos produtos no Brasil inviabiliza o envio da fruta para a Europa. Aliado a isso, novos inseticidas registrados para o controle não apresentam a eficácia desejada para o controle de uma praga tão agressiva como a mosca-das-frutas. Nesse contexto, a busca por técnicas alternativas de controle da mosca-das-frutas é necessária. Com as crescentes restrições da União Europeia a inseticidas tradicionais como os organofosforados e neonicotinoides, o uso do filme de partículas (Figura 1) tornou-se um aliado estratégico na produção de maçãs com resíduo zero. Está tecnologia se baseia no uso de produtos a base de argilo-minerais moídos e processados, como a caulinita ou caulim (Glenn & Puterka, 2005). Segundo os autores, este é um argilo-mineral de alumínio hidratado (Al2Si2O5(OH)4), 1:1, moído e processado, formando um pó branco muito fino, que é facilmente disperso em água. As pesquisas com esta tecnologia para o controle de insetos tiveram início em 1994, quando um experimento utilizando caulim hidrofóbico (pó) para controle de doenças em frutos demonstrou redução de danos causados por insetos (Glenn & Puterka, 2005). De acordo com os autores, a partir destes resultados, diferentes formulações de caulim foram testadas, até chegar numa formulação dispersível em água, lançada no mercado como Surround® em 1999. Ainda conforme os autores, em 2001, um espalhante adesivo foi incorporado a este produto passando a chamar-se Surround® WP. Atualmente, diversos produtos estão presentes no mercado. Para o controle de insetos, estes são pulverizados sobre as macieiras como uma suspensão aquosa que após secar, forma uma película de partículas branca e fina (normalmente < 2 µm) sobre as superfícies das folhas e frutos. Diferentemente da grande maioria dos inseticidas convencionais que agem por contato ou ingestão matando o inseto, a fina película esbranquiçada sobre as folhas e frutos pode atuar de três formas principais: Camuflagem do hospedeiro – as fêmeas da A. fraterculus não conseguem diferenciar a cor verde/vermelha dos frutos. O filme mineral recobre o fruto, altera seu reflexo luminoso e mascara sua cor. A mosca fica desorientada e não reconhece a maçã como um hospedeiro adequado; Desconforto tátil – caso a mosca pouse na fruta tratada, as micropartículas de pó mineral se desprendem e grudam no seu corpo, tarsos e antenas. Isso causa uma forte irritação/repelência no inseto, obrigando-o a interromper a postura de ovos para realizar um comportamento contínuo de limpeza. Barreira Mecânica contra Oviposição – a deposição do filme mineral dificulta o caminhar e a fixação do ovipositor da fêmea na casca da maçã, reduzindo drasticamente o número de “picadas de prova” e as posturas viáveis. Outro aspecto ressaltado por diversos trabalhos é que os efeitos secundários do caulim sobre artrópodes benéficos são geralmente considerados baixos.
Na cultura da macieira no Brasil, resultados promissores do uso de filme de partícula foram obtidos a partir de 2018. Até hoje, inúmeros trabalhos foram realizados em condições de laboratório, estufas e campo. Em laboratório, o número médio de larvas e/ou pupários registrados em maçãs tratadas com caulim e com Surround® WP foram inferiores ao da testemunha (sem controle) e não diferiram entre si. Esse mesmo resultado foi observado em trabalho realizado com frutos de pera (Tabela 1) (Ourique, 2021).
Tabela 1. Número médio (± EP) de larvas e/ou pupários de Anastrepha fraterculus (Diptera: Tephritidae) em maçãs ‘Gala’ (Malus domestica Borkh.) (n = 25), ameixas ‘Apiúna’ (Prunus domestica L.) (n = 15) e peras ‘Rocha’ (Pyrus communis L.) (n =10), submetidas aos tratamentos caulim 10%, Surround® WP 5% e sem aplicação (testemunha) em bioensaio com chance de escolha. (n = número de repetições)
A média de puncturas registradas tanto nos frutos tratados com caulim quanto nos com Surround® WP foi inferior à constatada na testemunha (Tabela 2). Este valor também diferiu entre as películas, sendo que nos que receberam caulim constatou-se um número menor de puncturas.
Tabela 2. Número médio (± EP) de puncturas e galerias de Anastrepha fraterculus (Diptera: Tephritidae) em maçãs ‘Gala’ submetidas aos tratamentos caulim 10%, Surround® WP 5% e sem aplicação (testemunha) em bioensaio de semicampo sem chance de escolha. (n = 19 frutos/tratamento)
O número médio de galerias foi menor nas maçãs tratadas com caulim em relação ao verificado na testemunha, entretanto, nos frutos tratados com caulim ou Surround® WP este número foi semelhante (Tabela 2). O caulim industrial promoveu mais de 99% de proteção aos frutos. O número de puncturas nos frutos tratados com Surround® WP foi aproximadamente 50% menor do que o da testemunha. Na safra 2025/2026 em um pomar da cultivar Fuji localizado na Estação Experimental da Epagri em São Joaquim (EESJ), realizou-se novo estudo procurando avaliar o efeito de novas formulações disponíveis no mercado, entre estas SunBlock (500 mL.100L-1), Terra diatomácea (1000g.100L-1), Ombrello (200mL.100L-1), Solvirtus® (1000g.100L-1) e Nano Cálcio (600g.100L-1). Os resultados demonstraram que os tratamentos contendo o filme de partícula Nano Cálcio e Ombrelo foram eficientes na contenção de danos ocasionados pela mosca-das-frutas (Gráfico 1), apresentando diferença significativa em relação ao tratamento testemunha. Em laboratório, com os mesmos produtos avaliados, somente Nano Cálcio apresentou diferença significativa com a testemunha. Entretanto, todos os produtos apresentaram tendência a apresentar diminuição quanto ao número de insetos emergidos por fruto quando comparado com o tratamento testemunha. Assim, novos estudos para definição de dose de aplicação devem ser conduzidos a fim de verificar a melhor forma de aplicação para cada produto.
Em relação ao momento de utilização, os trabalhos de validação a campo sugerem o início da aplicação com frutos ainda pequenos ou tão logo ocorra à formação dos mesmos. Aplicações ao longo do tempo, mesmo em dosagens menores àquelas já estudas em condições controladas (laboratório e semicampo) formarão camadas sobrepostas do produto, garantindo assim uma boa cobertura e proteção ao longo do tempo. Em relação ao efeito de lavagem pela chuva, Ourique (2021) verificou boa persistência mesmo com chuvas de até 50 mm.
Gráfico 1 – Efeito de diferentes produtos formadores de Filme de Partícula sobre a presença de frutos de maçã atacados pela mosca-das-frutas A. fraterculus. São Joaquim, SC. 2026. Comparações com * diferem entre si pelo teste não paramétrico de Kruskal–Wallis (p≤0,05).
Os resultados obtidos até o momento para A. fraterculus na cultura da macieira são semelhantes a outros relatados na literatura para outras espécies de mosca-das-frutas e revelam que a tecnologia dos filmes de partículas pode ser promissora para a redução da oviposição e, consequentemente, a diminuição de perdas provocadas por este inseto. Além disso, a proteção dos frutos pode ser estendida a outras pragas presentes na cultura, como Grapholita molesta e Bonagota salubricola, tendo em vista que a eficiência dessas películas para Cydia pomonella (L.) (Lep.: Tortricidae), espécie de hábito semelhante às anteriores, já foi relatada (Unruh et al., 2000).
Um aspecto importante a ser considerado para a adoção da tecnologia de partículas minerais é que estes produtos não possuem período de carência ou número máximo de aplicações permitidas por safra, sendo produtos ambientalmente seguros. Além disso, os equipamentos necessários para a pulverização são os mesmos utilizados em aplicações de um inseticida em cobertura. Os produtos formulados não são corrosivos e se utilizados de forma adequada, não geram entupimento de bicos. No entanto, necessitam de equipamentos com agitação constante (agitação mecânica preferencialmente) para se manter em suspensão. Por não serem tóxicos, não há limite quanto ao número de aplicações, como ocorre com os organossintéticos, que exigem um índice mínimo de infestação no pomar para que se realize a pulverização. Sendo assim, tratamentos preventivos com as películas podem prevenir a infestação nos frutos, mesmo que a população de moscas-das-frutas ainda não tenha atingido o nível de controle.

Referências
GLENN, D. M.; PUTERKA, G. J. Particle films: a new technology for agriculture. Horticultural Review, New York, v. 31, p. 1-44, 2005.
GLENN, D. M.; PUTERKA, G. J. Particle films: a new technology for agriculture. Horticultural Review, New York, v. 31, p. 1-44, 2005.
OURIQUE, C. B. Efeito de películas minerais em Anastrepha fraterculus (Wiedemann) e Diachasmimorpha longicaudata (Ashmead) associado a diferentes frutos. 2021. 101f. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2021.
Autores:
Cristiano João Arioli – Dr. Epagri, Estação Experimental de São Joaquim
José Gomes da Silva Filho – Dr. Bolsista Fapesc
Sabrina Lerin – Dra. Bolsista Fapesc
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