IMPORTÂNCIA DAS RESERVAS DE CARBOIDRATOS NAS FRUTEIRAS DE CLIMA TEMPERADO
O acumulo das reservas de carboidratos na formação e desenvolvimento das flores e frutos é um dos pontos mais importantes a considerar nas fruteiras de clima temperado e como podemos interferir no manejo da planta visando o aumento das reservas e a redução do estres abiótico e otimizar a produção.
As reservas são acumuladas principalmente nos órgãos lenhosos e perenes da planta. Estes incluem as raízes estruturais, tronco, brotos e ramos, bem como gemas mistas. Os carboidratos são armazenados no parênquima radicular e na madeira, enquanto nutrientes como nitrogênio, potássio e fósforo são armazenados em formas móveis e reutilizáveis durante a brotação. A qualidade e a quantidade das reservas nesses órgãos determinam em grande parte a fertilidade das gemas, o vigor inicial das novas brotações e a capacidade de frutificação.
. Durante a dormência de inverno, as reservas acumuladas nos órgãos lenhosos e raízes são mobilizadas para os locais de crescimento ativo no momento da brotação. Esse processo requer a ação de enzimas como amilases e invertases, que degradam os amidos em açúcares simples facilmente translocáveis. A eficiência do transporte de reservas também é influenciada pela temperatura do solo, solos frios (<10 °C) reduzem a atividade das raízes, enquanto solos quentes promovem a absorção e a transmissão de sinais hormonais, como giberelinas e citocininas, das raízes para as gemas
Uma folhagem ativa garante a continuidade da fotossíntese no período pós-colheita, essencial para a geração de carboidratos que serão mobilizados como amido para os órgãos de armazenamento e estarão disponiveis na forma de carboidratos para o inicio do ciclo. O fechamento estomático devido ao estresse hídrico ou térmico pode reduzir a fotossíntese afetando as reservas. Portanto, recomenda-se evitar a interrupção e mantendo as folhas na pós colheita, bem como o suprimento de nutrientes.
. Variações nas condições ambientais são obstáculos significativos para maximizar a produtividade das fruteiras de clima temperado. Eventos de estresse como geada, calor, granizo, seca e vento contribuem para a redução da produtividade. Durante a floração e a frutificação, podem causar danos às flores, aborto de flores (tubos polínicos deformados, esterilidade do pólen e aborto de óvulos) e queda prematura de frutos (Sinha et al., 2021). Nesta condições os carboidratos são cruciais para o metabolismo da flor, determinando sua qualidade, o crescimento inicial do ovário e a retenção; portanto, desempenham um papel essencial na flor durante o estresse abiotico. Embora a tolerância ao estresse seja influenciada pela cultivar, pelo estado de dormência e pelos estágios fenológicos, ela pode ser significativamente aumentada por níveis de nutrientes e carboidratos (Palonen e Buszard, 1997). Um exemplo é a redução dos danos causados por baixas temperaturas em flores que apresentam altos níveis de carboidratos no inicio da floração. Carboidratos solúveis, como os açúcares e amidos que suprem as necessidades energéticas imediatas da planta desempenham papéis multifuncionais no metabolismo vegetal, incluindo crescimento, reprodução e resposta a estresses. Portanto, variações no teor de açúcar podem influenciar a tolerância da planta ao estresse físico. O amido é uma reserva energética de longo prazo, enquanto diversos açúcares solúveis servem para proteger as células vegetais, sinalizando certas moléculas, sistemas de defesa antioxidante e reguladores hormonais durante o estresse abiotico (Li e Sheen 2016). O metabolismo do açúcar desempenha um papel crucial na indução da floração e na floração. A concentração de sacarose, glicose e frutose nas árvores influencia a sinalização hormonal, e altos níveis de açúcar antes da brotação estão associados a maiores produtividades e dai a importância de maximizar a disponibilidade de carboidratos para o crescimento das frutas . Práticas de manejo da carga de cultivo são utilizadas para alcançar um equilíbrio, como o raleio de floração ou como no caso da macieira com frutos de 5 a 8 mm. Esse equilíbrio depende principalmente da relação fonte-dreno alterada, que aumenta a disponibilidade e a alocação de carboidratos entre os frutos, aumentando seu tamanho e qualidade e reduzindo a produção bienal, principalmente em cultivares de macieira com Fuji que mostram tendencias a altenancia de produção. O manejo eficiente da carga de frutos no início da safra maximiza a disponibilidade de carboidratos para o crescimento das frutas (Bound 2019). Embora o manejo da carga de frutos e a qualidade dos frutos relacionados tenham sido amplamente estudados, melhorias na qualidade das gemas e flores da macieira, são cruciais para a produção de frutos de alta qualidade (Francescatto et al 2016). A floração da macieira é um processo fisiológico complexo e, para o rendimento depende da qualidade e da quantidade de flores ( Kumar et al 2024). O desenvolvimento floral envolve a indução (um sinal para se tornarem florais), a iniciação (transição de botões vegetativos para botões florais) e a diferenciação (desenvolvimento de órgãos florais). O manejo inadequado de carboidratos durante o início da floração resulta em produção bienal, interrompendo a produção regular na estação seguinte (Campbell e Kalcsits 2024). Além disso, extremos climáticos durante o períodos de desenvolvimento floral podem interferir na produção de frutos. O manejo aprimorado de carboidratos no início da fase reprodutiva pode ser útil para mitigar qualquer impacto físico adverso à produção de frutos. A tolerância ao frio é determinada principalmente pela cultivar e pelo estado de dormência, mas também é afetada pelos níveis de nutrientes e carboidratos armazenados. A desfolha reduz as reservas de carboidratos nas gemas e outros órgãos das fruteiras de clima temperado, para o que recomenda-se manter em bom estado fitossanitario e nutricional das folhas na pós colheita, pois a desfolha precoce na pós colheita reduzem os niveis de carboidrados para o inicio do ciclo.Também o efeito de uma maior massa radicular sempre nos permitirá obter diretamente maior acúmulo de reservas. Isso se traduz em melhor brotação e diferenciação de gemas na estação seguinte.
Os nutrientes aplicados devem ter como objetivo a reposição e o acúmulo de reservas nos tecidos lenhosos, onde as reservas são armazenadas. O N promove a síntese de proteínas estruturais; o P possibilita a regeneração de raízes finas ativas e o transporte de energia (ATP); o K melhora a mobilidade de açúcares através do floema; o B e o Zn participam da formação de gemas férteis e da diferenciação floral; portanto, uma fertilização pós-colheita balanceada é essencial para o processo.O manejo nutricional adequado apoiado por bioestimulantes maximizam as reservas em raizes, tronco e gemas. Por sua vez, situações específicas, como colheitas tardias ou porta-enxertos difíceis de manejar para uma dormência adequada, exigem ajustes sem perder de vista a importância da produção de carboidratos de reserva. A etapa de pós colheita representa um periodo fisiologico chave para a acumulação de reservas, fundamentais para manter a brotação, a fertilidade das gemas a frutificação efetiva e a qualidade dos ramos para o proximo ciclo. Não podemos esquecer que a fotossintese permite a sintese e translocação dos carboidratos até os orgão de reservas como raizes, troncos e gemas. Também os nutrientes como nitrogênio, fósforo, potassio, boro e zinco são absorvidos e mobilizados até os tecidos perenes. Os hormonios como citocininas e giberrelinas prfoduzidos a partir das raizes favorecem as reservas de carboidratos e consequentemente a diferenciação floral.
Em relação aos bioestimulantes, extratos de algas marinhas (Ascophyllum nodosum, e outras) e ácidos fúlvicos promovem a síntese de hormônios endógenos (citocininas) e a absorção radicular. Eles também melhoram a eficiência fotossintética e ajudam a manter a função foliar por mais tempo. Seu uso deve complementar um bom programa nutricional, não substituí-lo e portanto o uso de bioestimulantes esta se tornando importante nas fruteiras de clima temperado.
Referências
Bound SA (2019) “Precision crop load management of apple (Malus x domestica Borkh.) without chemicals”, Horticulturae, 5(1):3
.Campbell T and Kalcsits L (2024) “Strategies to overcome biennial bearing in apple – a review”, European Journal of Agronomy, 158:127213.
Francescatto P, da Silva AL, Petri JL, Couto M, Leite GB and Racsko J (2016) “Quality of apple flowers grown in different latitudes”, Acta Horticulturae, 1130:95–102.
Li L and Sheen J (2016) “Dynamic and diverse sugar signaling” Current Opinion in Plant Biology, 33:116–125.
Palonen P and Buszard D (1997) “Current state of cold hardiness research on fruit crops”, Canadian Journal of Plant Science, 77:399–420.
Kumar A., Mushtaq M, Kumar P, Sharma DP and Gahlaut V (2024) “Insights into flowering mechanisms in apple (Malus × domestica Borkh.) amidst climate change: an exploration of genetic and epigenetic factors”, Biochimica et Biophysica Acta, 1868:1305 93.
Sinha R, Fritschi FB, Zandalinas SI and Mittler R (2021) “The impact of stress combination on reproductive processes in crops”, Plant Science, 311:111007
José Luiz Petri
UNIARP/Curso de Agronomia/Caçador, SC
petri@gegnet.com.br
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