23 dez

O Programa de Melhoramento Genético de Macieira na Epagri recebe reforços

A cultura da macieira (Malus domestica Borkh.) é originária das regiões frias da China, foi domesticada e vem sendo tradicionalmente cultivada em países frios do hemisfério Norte (HAWERROTH e KVITSCHAL, 2017). Por esse motivo, é compressível que a maioria das variedades cultivadas pelo mundo sejam de alto requerimento de frio hibernal para superação da dormência. No Brasil, portanto, várias dessas variedades estrangeiras possuem deficiência de adaptação ao clima, visto que mesmo na região Sul do país não há acúmulo suficiente de frio para que a dormência seja superada adequadamente. Isso acarreta em brotação errática e deficiente, mesmo em variedades como Gala e Fuji que já vem sendo cultivadas no país há mais de quatro décadas e atualmente predomina em cerca de 95% dos cultivos de macieira no país.

Por questões comerciais e logísticas, nas ultimas décadas no Brasil foi criada uma grande dependência destas duas variedades, gerando muitas dificuldades para o setor produtivo, principalmente em aspectos relacionados à gestão da mão de obra e ao seu custo. Por isso, as pesquisas em Melhoramento Genético da Macieira são de grande relevância por oportunizar ao setor produtivo o acesso a mais opções de variedades que possam ser utilizadas na diversificação varietal nas propriedades. Kvitschal el al. (2022) enfatizam que a diversificação de variedades é uma estratégia importante a ser utilizada para minimizar ou até mesmo mitigar algumas dessas dificuldades nas propriedades frutícolas.

Por esse motivo, a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e de Extensão Rural de Santa Catarina) vem investindo em trabalhos de pesquisa em melhoramento genético dessa cultura há mais de cinco décadas no Brasil, cujo propósito é desenvolver novas variedades de alto valor agronômico, mas que possuam melhor adaptação ao clima brasileiro em comparação às variedades tradicionalmente predominantes, como Gala e Fuji (DENARDI et al., 2019). Esse trabalho de pesquisa vem sendo operado por duas unidades da Epagri, sendo a Estação Experimental de Caçador “José Oscar Kurtz” e a Estação Experimental de São Joaquim, cujo trabalho é realizado de forma conjunta com intuito de gerar tecnologias tanto para a região da Serra Catarinense quanto das regiões menos frias, como o Meio-oeste catarinense. Muitas dessas tecnologias geradas por esse Programa de Pesquisa têm aplicação também para a região gaúcha, nos entornos de Vacaria – RS, região esta que também possui grande expressão na produção de maçãs no Brasil.

Exemplos de variedades importantes lançadas pela Epagri para o setor são a Fuji Suprema, que é um dos clones de Fuji mais plantados no Brasil e as mais recentes mutações de Gala, a exemplo da Gala Gui e Galídia (Figura 1), pois ambas são resistentes à mancha foliar de glomerella (Colletotrichum spp.). A variedade Lorenzo, que é uma mutação de ‘Condessa’ mas imune à mancha foliar de glomerella, também se destaca como uma opção importante para regiões mais quentes, que tradicionalmente produzem a variedade ‘Eva’ e iniciam a colheita ainda em dezembro. Mas as novas variedades híbridas desenvolvidas pela Epagri, ‘Luiza’, ‘Venice’, ‘Isadora’ e ‘Serrana’ (Figura 1), também possuem importantíssimo valor para o setor produtivo, pois são geneticamente distintas das tradicionais ‘Gala’ e ‘Fuji’, e isso contribui para a redução da vulnerabilidade genética dos cultivos de macieira no país. Além disso, são variedades que possuem característica de melhor adaptação ao clima brasileiro, produzem frutas de excelente qualidade e são colhidas em períodos diferentes da colheita de Gala e Fuji. Isso garante uma vantagem diferencial muito importante a essas variedades, pois as elegem como opções relevantes para a diversificação de variedades no meio produtivo.

Figura 1. Ilustração do padrão de qualidade visual das frutas de algumas das variedades de macieira desenvolvidas pela Epagri.

 

Este programa de sucesso é fruto do trabalho de pesquisadores que dedicaram suas carreiras à pomicultura catarinense. Nomes como Anísio Camilo (in memorian), Frederico Denardi, José Luiz Petri e José Itamar Boneti foram pioneiros e pilares fundamentais, cujo legado permitiu o desenvolvimento de dezenas de tecnologias que transformaram a produção de maçã no Brasil.

No entanto, por muitos anos a equipe de pesquisa em melhoramento genético, tanto na Unidade de Caçador quanto na Unidade de São Joaquim, esteve desfalcada devido às aposentadorias e aos desligamentos de pesquisadores que migraram para outras instituições. A aposentadoria próxima do pesquisador Ivan Dagoberto Faoro, prevista para julho de 2026, também reforça a necessidade contínua de renovação.

Para garantir a continuidade deste trabalho estratégico, a Epagri, por meio de um concurso público realizado em 2022, vem promovendo a renovação de seu quadro técnico. Recentemente, o programa recebeu dois novos doutores para compor seu time (Figura 2). Em abril, a pesquisadora Liane Bahr Thurow, engenheira agrônoma com mestrado e doutorado em Melhoramento Vegetal, passou a integrar a equipe da Estação Experimental de São Joaquim. Em setembro, foi a vez do pesquisador Tiago Camponogara Tomazetti, engenheiro agrônomo com mestrado e doutorado em Genética Vegetal, que foi contratado para atuar na Estação Experimental de Caçador.

Figura 2. Foto dos pesquisadores recém-contratados pela Epagri, Tiago Tomazetti (à esquerda) e Liane Bahr Thurow (ao meio), juntamente com o pesquisador Marcus Vinícius Kvitschal (à direita) em evento comemorativo aos 50 anos da Pesquisa Agropecuária na Epagri.

 

O fortalecimento das equipes vai além das novas contratações, envolvendo também a ampliação de uma rede colaborativa com universidades, cooperativas e outras instituições de pesquisa, nacionais e internacionais. A formalização de parcerias é um caminho essencial para reforçar o papel da pesquisa pública e acelerar a inovação. Nesse sentido, a Epagri já vislumbra a incorporação de tecnologias de ponta, como as ferramentas “ômicas” (genômica, transcriptômica) aliadas ao melhoramento clássico. Projetos focados em marcadores moleculares e RNA-seq, em fase de contratação via FAPESC, prometem trazer mais precisão e agilidade ao desenvolvimento de novas cultivares.

Unindo um legado consolidado a equipes renovadas e um olhar para o futuro da ciência, o Programa de Melhoramento Genético da Macieira da Epagri está mais forte do que nunca. A chegada dos novos pesquisadores e o investimento em inovação assegura que os produtores brasileiros continuarão a receber tecnologias de ponta para promover a diversificação, a competitividade e a sustentabilidade da produção de maçãs no país para as próximas décadas.

 

 

REFERÊNCIAS:

DENARDI, F.; KVITSCHAL, M.V.; HAWERROTH, M.C. A brief history of the forty-five years of the Epagri apple breeding program in Brazil. Crop Breeding and Applied Biotechnology, v.19, p.347-355, 2019.

HAWERROTH, M.C.; KVITSCHAL, M.V. A macieira (Malus spp.) no Brasil: exótica ou naturalizada? Agropecuária Catarinense, Florianópolis, v.30, n.2, p. 11-12, 2017.

KVITSCHAL. M.V.; COUTO, M.; LEITE, G.B. Necessidade da diversificação de cultivares na cadeia produtiva da maçã no Brasil. Agropecuária Catarinense, v.35, n.3, p.7-10, 2022.

 

Marcus Vinicius Kvitschal[1]; Liane Bahr Thurow[2]; Tiago Camponogara Tomazetti[3]

[1] Engº Agrônomo, Pesquisador – Epagri / Estação Experimental de Caçador “José Oscar Kurtz”, e-mail: marcusvincius@epagri.sc.gov.br

2 Engª Agrônoma, Pesquisadora – Epagri / Estação Experimental de São Joaquim, e-mail: lianethurow@epagri.sc.gov.br

3 Engº Agrônomo, Pesquisador – Epagri / Estação Experimental de Caçador “José Oscar Kurtz”, e-mail: tiagotomazetti@epagri.sc.gov.br

 

Veja também