Opções de controle químico das podridões calicinares das maçãs
O método de controle para diminuir os danos causados pelo ataque de fitopatógenos mais comumente utilizado nas macieirasé a proteção das plantas com fungicidas. Uma vez que no Brasil a cultura se desenvolve em pomares de tamanho médio a grande, o maior efeito na variabilidade dos patógenos nos pomares se dá pela diferença no manejo e dos programas de tratamentos que cada um utiliza.Assim, pomares que usam frequentemente produtos de alto risco de seleção de estirpes resistentes e a incidência da doença presente seja mais elevada, a perda de controle ocorrerá mais rapidamente.Também, por essa situação, é provável que a frequência de isolados com baixa sensibilidade aos fungicidas ocorra em proporção variável e diferente, nas propriedades com sistemas de manejo de fungicidas com diferentes rotações de grupos ativos. É importante lembrar que a perda de controle da doença ocorre pelo uso frequente de um princípio ativo de alto risco de seleção de estirpes resistentes,seja em mistura ou não. Vários dos fungicidas citados na literatura cientifica ou são proibidos ou não têm registro no Brasil para a cultura no campo.
- Levantamento de estudos realizados sobre a sensibilidade aos fungicidas de isolados dos patógenos associados à podridão calicinar
- Controle químico de Neonectria ditíssima
Neonectriaditissima – agente causal do cancro europeu das pomáceas- varia na sensibilidade de isolados aos fungicidas. Isolados estudados (43) mostraram alta sensibilidade ao fludioxonil e trifloxystrobin, sensibilidade moderadaao dodine, fluopyram, tiofanato metílico e carbendazim. Foi constatada baixa eficiência ou resistência ao ciprodinil,pyrimetanil e boscalid.
Efeito dos produtos de maior eficácia
- Fludioxonil: alta eficácia para redução de podridões e de cancros nos experimentos.
- Trifloxystrobin: apresenta alta eficácia em testes de laboratório, mas comportamento variável nos experimentos de campo.
Efeito dos produtos de eficiência variável
- Carbendazim:geralmente controle eficiente, mas há relatos de isolados com baixa sensibilidade. Essa situação recomenda o uso em mistura com outro fungicida.
- Dodine: menos eficiente para cancro europeu do que a associação de cobre e carbendazin.
- Fluopyram: diminui o tamanho/severidade das podridões em alguns experimentos.
- Tiofanato metílico: sob condições controladas controla o patógeno, mas no campo tem mostrado controle variável.
Efeito dos produtos de baixa eficiência
- Cyprodinile Pyrimetanil: doses elevadas para controlar o patógeno em laboratório.
- Boscalid: baixo controle de podridões de maçãs no laboratório.
- Controle químico de espécies de Colletotrichum
Os isolados coletados no campo podem variar em sensibilidade aosfungicidas,mas dificilmente essa diferença pode ser atribuída a característica inerente da espécie. Para isso, deve ser realizada a detecção da resistência aos princípios ativos através dos marcadores, comparando também isolados nunca antes expostos aos fungicidas.
Observações de isolados de Colletotrichummelonis e C. nymphaeae- do complexoColletotrichumacutatum– obtidos de macieiras mostraram que isolados da primeira espécie foi mais sensível que a segunda aofluaziname ao tebuconazole. Os fungicidas mais efetivos – por agirem em doses muito baixas nas duas espécies – foram cyprodinilebenzovindiflupyr, enquanto fluaziname tebuconazoleforam intermediários. Outros estudos comparativos de sensibilidade de isolados de outras espécies de Colletotrichum obtidos de maçãs mostraram que C. siamense é mais sensível a diferentes grupos de fungicidas do que C. fructicola e C. theobromicola-espécies do complexo C. gloeosporioides.
Trabalhos comparando sensibilidade de isolados de C. gloeosporioides, C. fructicola, C. siamense, C. nymphaeaee C. fioriniaeao tiofanato metílico, tebuconazole, azoxystrobin e carbendazim,mostrram que o fungicida mais eficaz foi o tebuconazole, sendo queC. fructicolamostrou menor sensibilidade a todos os fungicidas. Em outras pesquisasconduzidascom isolados dos complexos C. gloeosporioides edeC. acutatum – nunca expostos aos fungicidas – revelaram alta sensibilidade aoazoxystrobin. Entretanto, isolados de C. gloeosporioides (C. fructicola e C. siamense) foram menos sensíveis ao fludioxonil do que os do complexo de C. acutatum (C. fioriniae e C. nymphaeae).
- Resistência aos fungicidas de Neonectria e de espécies de Colletotrichum que infectam a macieira
Apesar do carbendazin e do tiofanato metílico serem reconhecidos como os únicos com propriedades curativas de infecções causadas por Neonectria ditíssima, o uso contínuo deles pode selecionar estirpes resistentes. Assim, em pomares com infecção severa ocorrem tanto isolados sensíveis como com resistência intermediária a esses princípios ativos.
No Brasilfoidemostrado – em 2019 – que isolados do complexo C. gloeosporioides foram resistentes a um fungicida inibidor da síntese da quinona externa (QoIs/estrobilurinas). Em outra pesquisa também foi constatada a resistência de isolados desse grupo aos benzimidazóis.Recentemente também foi detectada resistência ao Fluxapiroxade(SDHIs).
- Espécies de Colletotrichum associadas a podridão calicinar no Brasil ciclo 2024/25
Frutas com sintomas de podridão calicinar foram coletadas de sete ‘Packings’ da região produtora de maçãs após armazenamento em câmara fria por aproximadamente 3 meses. Após isolamento e classificação morfológica, um total de 16 isolados de Colletotrichum foram enviados para identificação molecular. Todos os isolados foram classificados dentro de C. chrysophilum (complexo C. gloeosporioides).
- Frequência das podridões calicinares em Vacaria no ciclo 2024/25
Na cultivar Gala, verificou-se somente a presença de Colletotrichum e Neonectrianas podridões calicinares na colheita em Vacaria(Tabela 1).Após armazenagem em câmara fria, foi observada a presença também de Neofabraea e Botryosphaeria. Já na cultivar Fuji, além de Colletotrichum e Neonectria, também foi observada a presença de Botryosphaeriana colheita. Na pós-colheita também foi observada a presença de Neofabraea e Botryosphaeria. Áreas com maior incidência de cancro europeu apresentam maior frequência de podridão calicinar por Neonectria. A‘Fuji’ apresentou maior frequência de podridão calicinar por Neofabraeado que a ‘Gala’. Após a armazenagem, enquanto que na ‘Gala’ predominou Colletotrichum e Neonectria, na ‘Fuji’ predominou Neonectria e Neofabraea.
Tabela 1. Frequência de podridão calicinar na colheita e após 2 meses de armazenagem em frio comum + 7 dias a 20ºC – ciclo 2024/25.
- Expectativa de podridão calicinar para o ciclo 2025/26
A primavera mais fria não foi favorável para as infecções e irá proporcionar uma fruta de maior qualidade que as da safra passada. Porém, mesmo assim deve-se atentar para reforçar a limpeza de frutos e ramos com cancros nos pomares e a proteção das plantas com alternância de princípios ativospara o manejo pré-colheita, principalmente agora com a intensificação das chuvas associadas as altas temperaturas e o avanço da maturação da fruta.

- Recomendação final
- Redução dos fatores de estresse que estimulam a predisposição das maçãs à infecção calicinar;
- Diminuir o inóculo de patógenos nos pomares, retirando e queimando as fontes de inóculo 15 dias antes dos tratamentos para superação da dormência;
- Utilizar fungicidas eficientes de diferentes grupos químicos durante todo o ciclo, atendendo as recomendações de máximo de tratamentos para cada grupo por ciclo vegetativo.
Rosa Maria Valdebenito Sanhueza
Vinícius A Bartnicki
Lucas Chaves Melo
Alessandro Daher
João Fonseca
Manuella Leal
Centro de Pesquisa Proterra






