24 fev

Resistência a doenças e desempenho produtivo colocam a macieira ‘SCS1605 Serrana’ em posição de destaque

A produção de maçãs no Brasil está fortemente concentrada na Região Sul, com destaque para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que juntos respondem por praticamente toda a produção nacional (Epagri, 2024). Segundo dados do Observatório Agro Catarinense, Santa Catarina colheu mais de 482,2 mil toneladas de maçãs na safra 2024/25, com predominância das cultivares ‘Fuji’, responsável por 57,3% da produção estadual, e ‘Gala’, com 40,7% (Epagri, 2025a). Esse desempenho está associado, entre outros fatores, à expansão contínua da área cultivada na Serra Catarinense, que passou de 12.060 hectares em 2020 para 14.026 hectares em 2023, alcançando 14.981 hectares em 2025 (Epagri, 2025b). Esse crescimento reforça a importância de sistemas produtivos capazes de manter produtividade e qualidade em um ambiente onde o manejo fitossanitário segue sendo um dos principais desafios da cultura.

Nesse contexto, a Serra Catarinense, especialmente o município de São Joaquim, consolidou-se como uma das principais regiões produtoras do país, reunindo pequenos e médios produtores, além de empresas integradas à cadeia produtiva. O clima frio favorece a produção de frutos de alta qualidade, mas também impõe desafios importantes, sobretudo relacionados ao manejo de doenças. Entre elas, a sarna da macieira, causada pelo fungo Venturia inaequalis, permanece como um dos principais fatores de aumento de custos, risco produtivo e dependência de aplicações frequentes de fungicidas. Apesar de sua relevância, ainda são poucos os cultivares comerciais disponíveis com resistência genética efetiva a essa doença, o que reforça a necessidade de alternativas mais estáveis e adaptadas às condições regionais.

É nesse cenário que se destaca o cultivar ‘SCS1605 Serrana’, desenvolvido pelo programa de melhoramento genético da Epagri. Trata-se de um híbrido F1 originado do cruzamento entre ‘Gala’ e a seleção D1R98T188 (portadora do gene de resistência à sarna RVi6), com adaptação mais específica às regiões de maior altitude e menores temperaturas. Seu principal diferencial é justamente a alta resistência à sarna da macieira, uma das doenças mais importantes da cultura e responsável por grande parte das aplicações de fungicidas em pomares comerciais (Araújo et al., 2023a), impactando diretamente o custo de produção e a estabilidade dos pomares na região.

Na prática, essa resistência contribui para reduzir a pressão da doença ao longo do ciclo, diminuir a necessidade de aplicações frequentes de fungicidas e reduzir a dependência de janelas climáticas favoráveis para pulverização. Como resultado, o produtor passa a operar com maior segurança produtiva, especialmente em anos com elevada ocorrência de chuvas, quando o controle da sarna tende a ser mais difícil e oneroso. Além disso, estudos conduzidos em São Joaquim indicam que a ‘Serrana’ apresenta menor suscetibilidade à mancha foliar de Glomerella quando comparada à cultivar ‘Gala’. Avaliações em folhas e frutos mostraram menores níveis de incidência e severidade da doença, evidenciando resistência parcial ao patógeno Colletotrichum acutatum (Araújo et al., 2023b).

Outro aspecto relevante diz respeito ao cancro europeu da macieira, causado por Neonectria ditissima. Ensaios laboratoriais demonstraram que frutos de ‘Gala’ e ‘Fuji’ são mais suscetíveis à podridão provocada por esse patógeno do que os frutos da ‘Serrana’, independentemente do método de inoculação (De Oliveira et al., 2023). Considerando que não existem cultivares comerciais com resistência genética efetiva a essa doença, esse comportamento representa uma vantagem importante no manejo fitossanitário e na redução de perdas pós-colheita.

Do ponto de vista produtivo, ‘SCS1605 Serrana’ tem apresentado resultados expressivos e consistentes na região de São Joaquim. Experimentos conduzidos na Estação Experimental da Epagri, nas safras 2019/2020 e 2020/2021, registraram produtividades superiores a 59,2 t ha⁻¹ e 93,4 t ha⁻¹, respectivamente, valores compatíveis ou superiores às médias regionais observadas para cultivares tradicionais. Mesmo com essas produtividades não foi verificada alternância na produção, sendo um ponto de destaque do cultivar. Avaliações sobre os porta-enxertos Maruba (MB) e MB/M.9 apresentaram bom desempenho em ambas as combinações, onde o uso do porta-enxerto MB/M.9 resultou em maior produtividade e maior calibre de frutos, além de maiores teores de sólidos solúveis e melhor coloração vermelha da casca em comparação ao Maruba (De Martin et al., 2024).

A qualidade dos frutos é outro ponto de destaque da ‘Serrana’ (Figura 1). As maçãs apresentam tamanho médio a grande, elevada proporção de frutos enquadrados nas classes comerciais superiores, boa coloração vermelha e uniformidade, especialmente quando cultivadas sobre porta-enxertos menos vigorosos, que favorecem a interceptação de luz no dossel. Ainda, de acordo com De Martin et al. (2024), os frutos apresentam teores elevados de sólidos solúveis, firmeza adequada e acidez equilibrada, atributos valorizados pelo consumidor brasileiro e indicativos de bom potencial de aceitação comercial, além de alto aproveitamento no beneficiamento, com menor descarte por defeitos físicos ou fitossanitários.

Em relação ao armazenamento, pesquisas demonstram que a ‘SCS1605 Serrana’ possui boa capacidade de conservação em atmosfera controlada. Durante o período avaliado, os frutos mantiveram maior firmeza e acidez, além de apresentarem menor incidência de podridões e distúrbios fisiológicos quando comparados ao armazenamento em atmosfera do ar. Embora concentrações elevadas de CO₂ possam causar danos superficiais na casca, não foram observados sintomas internos típicos de injúria por CO₂ (Baseggio et al., 2024). Essa boa performance em pós-colheita amplia a flexibilidade de comercialização, permitindo ao produtor escalonar a venda da produção e aproveitar melhores oportunidades de mercado ao longo do ano.

Figura 1: Aspectos do potencial produtivo e da qualidade visual dos frutos do cultivar ‘SCS1605 Serrana’, evidenciando elevada carga de frutos, uniformidade, calibre e coloração da casca em condições de cultivo da Serra Catarinense.
Foto: Miguel Angelo de Rocco

Nesse conjunto de características, a ‘SCS1605 Serrana’ se apresenta como uma alternativa especialmente interessante para produtores que buscam reduzir custos e riscos associados ao manejo de doenças, aumentar a estabilidade produtiva em anos favoráveis à ocorrência de sarna e outras enfermidades, diversificar o portfólio de cultivares e reduzir a dependência exclusiva de ‘Gala’ e ‘Fuji’, além de investir em sistemas de produção mais sustentáveis, com menor uso de insumos químicos. A adoção do cultivar pode ser realizada de forma gradual, integrando-se aos pomares já estabelecidos e permitindo ao produtor avaliar seu desempenho em escala comercial antes de eventuais ampliações futuras.

A combinação de resistência genética a doenças, desempenho produtivo consistente, qualidade de frutos e boa capacidade de conservação pós-colheita torna o cultivar ‘SCS1605 Serrana’ uma alternativa técnica e economicamente promissora. Esses atributos se refletem em maior estabilidade produtiva, redução de riscos associados ao manejo fitossanitário e maior previsibilidade para o planejamento e a comercialização da produção. A Epagri informa que novos estudos estão em andamento, com foco em recomendações fitotécnicas mais abrangentes, visando ampliar ainda mais o suporte técnico aos produtores interessados na adoção desse cultivar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Araujo, L.; Kvitschal, M. V.; Pereira, A. J.; Bone, J. I. S.; Camilo, A. P.; Brighenti, E.; Martin, M. S.; Pinto, F. A. M. F.; Arioli, C. J.; Brighen, A. F. SCS1605 Serrana: cultivar resistente à sarna da macieira. Florianópolis, SC: Epagri, 2023a. 2 p.

Araujo, L.; Pinto, F. A. M. F.; Martin, M. S.; Oliveira, B.; Couto, M.; Kvitschal, M. V. Resistência do cultivar de macieira SCS1605 Serrana à mancha foliar de Glomerella / Resistance of the cultivar of apple tree SCS1605 Serrana to Glomerella leaf spot. In: Congresso Brasileiro de Fitopatologia, 53., 2023, Brasília. Resumos… Brasília: Sociedade Brasileira de Fitopatologia, 2023b. p. 620.

Baseggio, P.; Martin, M. S.; Argenta, L. C.; Ogoshi, C.; Hahn, L. Resposta de maçãs SCS1605 Serrana à atmosfera controlada com diferentes concentrações de CO₂. In: Encontro Nacional de Fruticultura de Clima Temperado, 18., 2024, Freiburgo, SC. Resumos… Caçador, SC: Epagri, 2024. p. 104. ISBN 978-65-6069-007-3.

De Martin, M. S.; Brighenti, A. F.; Pinto, F. A. M. F.; Araujo, L.; Couto, M.; Arioli, C. J. Potencial produtivo e qualidade de frutos do cultivar de macieira ‘SCS1605 Serrana’ conduzida sobre diferentes porta-enxertos. Agropecuária Catarinense, Florianópolis, v. 37, n. 2, p. 19–22, 2024.

De Oliveira, B.; Pinto, F. A. M. F.; Araujo, L.; Martin, M. S.; Kvitschal, M. V. Resistência do cultivar SCS1605 Serrana à podridão de frutos causada por Neonectria ditissima. In: Semana de Estudos Agropecuários, 12., 2023, Videira, SC. Anais… Videira, SC: Instituto Federal Catarinense, 2023.

Epagri. Síntese anual da agricultura de Santa Catarina 2024. Florianópolis: Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, 2024.

Epagri. 50 anos de pesquisa da Epagri transformam o Brasil de importador a exportador de maçã. Santa Catarina, 2025a. Disponível em: https://blog.epagri.sc.gov.br/50-anos-de-pesquisa-da-epagri-transformam-o-brasil-de-importador-a-exportador-de-maca/. Acesso em: 7 jan. 2026.

Epagri. Mapeamento por satélite mostra crescimento dos pomares de maçã na Serra de SC. Santa Catarina, 2025b. Disponível em: https://www.epagri.sc.gov.br/mapeamento-por-satelite-mostra-crescimento-dos-pomares-de-maca-na-serra-de-sc/. Acesso em: 7 jan. 2026.

 

Maíra Tomazzoli Specht[1]; Liane Bahr Thurow[2].

[1] Engª Agrônoma, Pesquisadora – Epagri / Estação Experimental de São Joaquim, e-mail: mairaspecht@epagri.sc.gov.br

2 Engª Agrônoma, Pesquisadora – Epagri / Estação Experimental de São Joaquim, e-mail: lianethurow@epagri.sc.gov.br

 

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