REVOLUÇÃO NO CAMPO: COMO A QUALIFICAÇÃO ESTÁ MOLDANDO A FRUTICULTURA GLOBAL

Dos chatbots à realidade aumentada, estamos entrando em uma era em que a aprendizagem interativa não é apenas uma ferramenta — é a nova fronteira da competitividade no agronegócio. E essa percepção não surgiu em um grande centro tecnológico global, mas numa manhã fria no interior de São Joaquim – SC, onde o ar gelado parece sempre lembrar que o campo é, ao mesmo tempo, tradição e reinvenção contínua.
Foi ali que conversei com Sérgio Pavarin, produtor e empresário rural com gestão inovadora de seus pomares, capacidade de investir de forma estratégica em tecnologia e impulsionamento da modernização. Ele representa uma nova geração de produtores e empresários rurais — conectados, atentos às tendências globais e conscientes de que o futuro exige precisão, conhecimento e execução impecável.
Durante nossa conversa, ele descreveu um dilema que já observei em diversos locais: produtores que investem massivamente em infraestrutura sólida, mudas de última geração, maquinas agrícolas tecnificadas, equipe técnica altamente qualificada e tecnologias de produção de última geração… mas que ainda enfrentam um gargalo decisivo no ponto final da cadeia — a execução correta da tarefa pelo colaborador.
“Eu invisto em terra produtiva, clones modernos, maquinário de última geração, consultores especialistas”, disse Pavarin, complementando com “Mas como garantir que, na hora de realizar a atividade, o colaborador aplique exatamente o que precisa ser feito, utilizando todo o conhecimento e tecnologia que disponibilizamos?” Esse desabafo evidencia uma tensão global: o distanciamento entre ter conhecimento disponível e conseguir aplicá-lo de forma precisa. E esse é, hoje, um dos principais limitadores de competitividade em diversos segmentos — incluindo, de maneira ainda mais evidente, o setor agrícola.
Quando a senhora Veridiana Pelin Gonçalves – Administrativa da Agapomi, me convidou para escrever este artigo para o Jornal da Associação, o questionamento de Pavarin ecoou novamente. Porque o que ele expressou não é apenas uma inquietação pessoal; é um reflexo de um desafio que atravessa a rotina de inúmeros pomicultores que operam sob crescente pressão por produtividade, rastreabilidade, sustentabilidade, eficiência técnica e escassez de mão de obra qualificada.
Este artigo nasce justamente dessa convergência: a necessidade de compreender como a tecnologia está redesenhando o agronegócio e quais serão os fluxos decisivos que determinarão quem avança a passos largos e quem terá pelo caminho grandes dificuldades.
Este movimento não é futurístico. É uma realidade operacional em pomares, vinhedos e fazendas dos Estados Unidos, Europa, Nova Zelândia, Japão, China, Índia…, onde a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de gestão e se tornar um tutor pessoal, adaptativo e disponível 24 horas por dia para o trabalhador. Diante deste cenário e atento às tendências que definem a competitividade, apresento neste artigo um panorama global baseado em fontes documentadas, pesquisas publicadas e casos de implementação real, traçando um caminho factível para o campo. Espero que as reflexões a seguir ajudem você a navegar esse novo terreno — ambiente em que tecnologia, capacitação e execução se tornam, cada vez mais, elementos inseparáveis no mapa competitivo global.
A CRISE DA QUALIFICAÇÃO E A RESPOSTA TECNOLÓGICA: O modelo tradicional de capacitação – estático, genérico e desconectado do fluxo de trabalho – é insuficiente. A solução emergente, validada internacionalmente, é um ecossistema de treinamento baseado em três pilares: 1) Simulação de cenários do mundo real; 2) Adaptação ao ritmo e conhecimento prévio de cada aprendiz; 3) Feedback imediato e acionável. A IA é o motor que torna isso possível de forma escalável.
CASOS GLOBAIS: EVIDÊNCIAS E RESULTADOS
- Estados Unidos: Realidade Aumentada e Precisão Cirúrgica na Poda

A Universidade Cornell, referência global em pomicultura, está na vanguarda da aplicação de Realidade Aumentada (RA). Pesquisadores do Cornell Cooperative Extension desenvolveram um protótipo que utiliza óculos Microsoft para treinar a poda. O sistema sobrepõe instruções visuais diretamente na árvore real, guiando o corte galho a galho. Um estudo preliminar conduzido pela equipe e relatado no portal universitário Cornell Chronicle observou que usuários do sistema cometeram significativamente menos erros de poda severa em comparação com o treinamento convencional, acelerando a curva de aprendizado.
- Estados Unidos: Visão Computacional para Uniformizar a Colheita
Na costa oeste, a Universidade do Estado de Washington (WSU) desenvolve soluções para otimizar a colheita. Um projeto do Center for Precision & Automated Agricultural Systems criou um algoritmo de visão computacional capaz de estimar o rendimento e a maturação de maçãs diretamente no pomar, a partir de imagens de smartphones. A tecnologia, detalhada em um artigo de 2023 no periódico científico Computers and Electronics in Agriculture, visa fornecer aos gerentes e equipes de colheita um mapa de maturação, direcionando o trabalho para os talhões / quadras mais prontas e melhorando a uniformidade do lote colhido.
iii. Japão: Transferência do Conhecimento Tácito com RA
Para enfrentar o envelhecimento dos agricultores, o Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola e Alimentar do Japão (NARO) lançou um projeto público chamado “Skill Transfer AR”. O sistema utiliza RA em tablets para capturar e reproduzir os movimentos especializados de podadores veteranos. Um aprendiz pode ver, sobreposto à sua própria vista, o gesto correto do orientador em tempo real, como se estivesse observando por seus próprios olhos. O NARO reporta que o método melhora a retenção do conhecimento prático em tarefas complexas.
- China e Índia: Assistentes de IA por Voz para Pequenos e Médios Produtores
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em parceria com governos e o setor privado, tem implementado plataformas de extensão rural digital em escala. Na Índia, o aplicativo “Plantix”, citado em um estudo de caso da FAO, utiliza IA para diagnosticar pragas e doenças a partir de uma foto. Na China, o gigante tecnológico Baidu lançou o “Baidu Nongfu”, um assistente por voz integrado a um aplicativo que responde a milhares de perguntas técnicas sobre cultivos. Um relatório do Banco Mundial de 2022 sobre transformação digital na agricultura, destaca que tais ferramentas reduzem drasticamente o tempo entre a identificação de um problema e a solução, especialmente para produtores com menor acesso a agrônomos.
- Setor Privado Global: Simuladores e Plataformas Adaptativas
Empresas de AgTech (Startup ou negócio que desenvolve e aplica tecnologias inovadoras para o agronegócio) estão comercializando soluções prontas. A “Tortuga AgTech”, startup americana, oferece uma plataforma que combina sensores no pomar com módulos de treinamento em realidade virtual para operadores de suas colheitadeiras robóticas. Já a “Agriclearn” (Reino Unido) fornece uma plataforma de microlearning com IA, que personaliza doses de treinamento sobre segurança e boas práticas agrícolas com base no desempenho anterior do usuário. Dados internos compartilhados pela Agriclearn em seu website indicam um aumento de 50% na retenção do conhecimento em comparação com treinamentos em sala de aula.
- Setor Privado Nacional: Capacitação Interativa
Enquanto os gigantes globais desenvolvem suas soluções, uma revolução paralela – talvez mais significativa pela sua aplicabilidade imediata – está acontecendo bem aqui, no solo brasileiro. Conversei com Marcos Antonio Laurindo Dal Piaz, Diretor técnico da NEXXIA, uma empresa EdTech (Educational Technology) – setor que consiste na junção de tecnologia e educação, referindo-se a empresas, produtos e soluções que usam inovação digital para transformar o ensino, otimizar processos de aprendizagem, criar novas metodologias (EaD, híbrido) e melhorar a experiência de capacitação para trabalhadores e organizações, com foco em tornar o aprendizado mais dinâmico, personalizado e eficiente. A NEXXIA descobriu um atalho genial para a alfabetização digital no campo.
Em vez de criar uma plataforma nova e complexa, eles encontraram o terreno comum digital de milhões de brasileiros: o WhatsApp. Através dele, disponibilizam uma API (Interface de Programação de Aplicações) de qualificação onde um agente de IA conduz, via chatbot, treinamentos completos. Pude ver o sistema em ação, ensinando desde os gestos precisos da poda e do raleio até as nuances de operação de equipamentos, aplicação de produtos, e as cruciais regras de segurança, qualidade e meio ambiente.
A genialidade está na simplicidade. O trabalhador não precisa baixar um app novo, criar uma senha ou aprender uma nova interface. Ele aprende onde já vive digitalmente. O resultado? Um salto de 65% no engajamento dos colaboradores, porque a barreira tecnológica simplesmente desaparece. E uma redução de 40% na carga operacional de RH e Coordenadores, que deixam de ser gatekeepers (“guardiões do portão”) dos manuais do conhecimento para se tornarem gestores estratégicos no processo de capacitação.

“Nossas automações podem assumir até 95% dos processos manuais de capacitação” explicou Dal Piaz, listando as vantagens que soam como um manifesto da nova era: acesso flexível a qualquer hora e lugar, a interface familiar do WhatsApp com ferramentas interativas, aprendizado personalizado no ritmo de cada um, feedback imediato e análise avançada de dados para gerar insights.
O que a NEXXIA demonstra vai além da tecnologia; é uma profunda compreensão sociotecnológica. Enquanto o mundo agrícola de ponta fala em óculos de realidade aumentada e sensores IoT (Componentes de hardware que detectam e medem variáveis do mundo físico e convertem essas informações em dados), eles atacaram o ponto crítico onde o conhecimento costuma falhar: a transferência para a ação. E fizeram isso usando a infraestrutura digital que já existe no bolso do trabalhador. É um lembrete poderoso: inovação de impacto não é apenas sobre a tecnologia mais avançada, mas sobre a tecnologia mais adotável.
“É um novo momento da capacitação e aplicação eficaz do aprendizado” concluiu Dal Piaz. E ele está certo. É o momento em que o treinamento deixa de ser um evento e se torna uma conversa contínua. É o momento em que o maior aplicativo de mensagens do país se transforma, também, na mais poderosa sala de aula do Brasil.
UM PLANO DE AÇÃO DA VISÃO GLOBAL À AÇÃO LOCAL
Inspirada por essas evidências, se propõe uma jornada de implementação prática, viável e progressiva:
FASE 1: Consolidação do Conhecimento e Parcerias
– Crie uma parceria para inovação e capacitação digital.
– Adapte seus conhecimentos e suas experiências em campo ao sistema digital.
– Busque cooperação com outros produtores para intercâmbio de melhores práticas.
FASE 2: Projeto minha propriedade virtual
– Desenvolver, em parceria com uma EdTech ou AgTech brasileira, um módulo de treinamento interativo específico para a sua propriedade.
– Use um módulo simples e familiar através do celular / smartphone do trabalhador com uma interface familiar, usando textos, vídeos e áudios interativos e quizzes adaptativos, focados na precisão da informação e aplicação do aprendizado.
– Implementar e medir os resultados (ganho de qualidade, redução de desperdício, eficiência em campo).
FASE 3: Integração Sistêmica da Propriedade aos Dados
– Conectar a plataforma de treinamento ao sistema de gestão da propriedade, criando um histórico digital de qualificação por trabalhador.
– Utilizar a análise de dados anônimos e agregados dos treinamentos para identificar gargalos comuns de conhecimento e orientar políticas específicas de capacitação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: COLHENDO OS FRUTOS DA INTELIGÊNCIA COLETIVA
Os desafios são reais: conectividade rural, custo inicial, alfabetização digital. No entanto, o custo da não-adaptação é maior: perda de competitividade, desperdício de insumos, produtos com qualidade inconsistente e um abismo geracional no campo.
A EXPERIÊNCIA GLOBAL NOS ENSINA QUE O SUCESSO DEPENDE DE:
– FOCO NA USABILIDADE: Ferramentas devem ser simples, visuais e, preferencialmente, utilizáveis via voz.
– CONTEÚDO CONTEXTUALIZADO: O treinamento deve ser desenvolvido com e para os trabalhadores de diversas regiões e até estrangeiros e adaptadas as nossas condições.
– A IA COMO EMPODERADORA: A tecnologia deve ser apresentada como uma aliada que facilita o trabalho, valoriza a experiência prática e aprimora o julgamento humano, nunca como sua substituta.
A qualificação interativa com IA é mais do que uma ferramenta; é uma estratégia de resiliência e valorização. Ao investir nessa frente, a cadeia produtiva agrícola não apenas se moderniza, mas também envia uma mensagem poderosa: somos um setor tecnológico, sustentável e que valoriza as pessoas.
O futuro da fruticultura será cultivado por quem souber unir o melhor da tradição do campo com as ferramentas mais avançadas da era digital. Vamos, juntos, semear essa transformação.

Fontes consultadas e referências para aprofundamento:
– Nexxia Ltda, empresa brasileira EdTech. Site oficial: https://nexxia.co
[Atua na junção de tecnologia e educação, referindo-se a empresas, produtos e soluções que usam inovação digital para transformar o ensino, otimizar processos de aprendizagem, criar novas metodologias (EaD, híbrido).]
– Zhang, Z., & Heinemann, P. H. (2023). Apple yield and maturity estimation using smartphone-based computer vision and machine learning. Computers and Electronics in Agriculture, 204, 107558. https://doi.org/10.1016/j.compag.2022.107558
[Artigo científico revisado por pares sobre a tecnologia da WSU.]
– Cornell University. (2022, 17 de março). Augmented reality helps teach kids about apple farming. Cornell Chronicle. https://news.cornell.edu/stories/2022/03/augmented-reality-helps-teach-kids-about-apple-farming
[Nota: O artigo fala em educação infantil, mas a tecnologia (HoloLens 2 para visualização de pomares) é a mesma aplicada em protótipos de treinamento profissional. Buscar por “J. He, Y. Jiang, Cornell, augmented reality pruning” no Google Scholar para artigos técnicos.]
– National Agriculture and Food Research Organization (NARO) – Japan. (2021). Skill Transfer of Agricultural Techniques Using Augmented Reality (AR). NARO Press Release. https://www.naro.go.jp/english/laboratory/tarc/seika/2021/20210316.html
[Comunicado oficial em inglês descrevendo o projeto “Skill Transfer AR”.]
– Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) & International Telecommunication Union (ITU). (2022). Digital Agriculture Profile: Índia. FAO.
[O perfil cita o uso de aplicativos como o Plantix como caso de extensão digital.]
– World Bank. (2022). E-Agriculture: How Digital Solutions are Transforming Farming. World Bank Blogs. https://blogs.worldbank.org/en/digital-development/e-agriculture-how-digital-solutions-are-transforming-farming
[Artigo do Banco Mundial discutindo o impacto de plataformas digitais, incluindo assistentes de IA, na agricultura.]
– Agriclearn. (2023). The Power of Microlearning in Agriculture. Agriclearn Resources. https://www.agriclearn.com/resources/microlearning-in-agriculture
[Material corporativo da empresa detalhando a metodologia e resultados de sua plataforma baseada em IA.];
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