02 dez

Por que as capturas de grafolita não diminuem após a aplicação dos inseticidas no período da floração?

Todo fruticultor, técnico agrícola e/ou engenheiro agrônomo responsável por um pomar já se fez essa pergunta: “Por que as capturas de grafolita não diminuem nas armadilhas após a aplicação dos inseticidas no período de floração?”. Ano após ano a pesquisa da Epagri tem tentado esclarecer isso àqueles que estão diretamente envolvidos com o manejo dos pomares, especialmente aos técnicos mais experientes com a cultura, que tinham ou ainda tem como base, que inseticida bom é aquele que “limpa” a praga do pomar, com consequente eliminação da presença de adultos, visto através da diminuição das capturas em armadilhas de monitoramento. Para tentar responder melhor isso, todo um contexto deve ser repassado ao setor a fim de esclarecer a nova forma de manejo que tem sido sugerida nos últimos 10 anos.  Primeiramente, vamos lembrar da biologia da praga Grapholita molesta (Lepidoptera: Tortricidae), popularmente conhecida como grafolita ou mariposa-oriental. Ao término da safra da maçã, com a diminuição das temperaturas e da luminosidade (diminuição das horas de luz), a grafolita entra em diapausa, que é a paralisação do seu desenvolvimento biológico e, próximo a fase de pupa, permanece escondida nos pomares, em frutos mumificados ou caídos no solo, em folhas secas aderidas aos ramos e em burrknots localizados nos troncos ou nos ramos da macieira (Figura 1) encontrando abrigo e fazendo destes, substrato para sua alimentação após o período de diapausa. Em meados de agosto, com o aumento das temperaturas e da luminosidade, surge a primeira geração da praga que terá as primeiras brotações como alvo (Figura 2) e depois, consequentemente, os primeiros frutos (Figura 3). Com o passar dos meses, as condições climáticas ficam cada vez mais favoráveis ao desenvolvimento da praga, que pode completar seu ciclo biológico de ovo a adulto em aproximadamente 30 dias. No período de floração são introduzidas nos pomares as colméias de abelha Apis mellifera (hymenoptera: Apidae) para a polinização. Esse passa a ser considerado como um período crítico para controle de doenças e também de insetos-pragas, como a grafolita, já que os fruticultores deverão estar atentos com as ferramentas a serem utilizadas, já que grandes populações de insetos polinizadores e pragas estarão presentes nos pomares.

Durante o período da floração, em virtude da presença dos polinizadores, as pulverizações realizadas nos pomares devem evitar ou minimizar danos às abelhas e por isso, muitos inseticidas não podem ser utilizados neste período, devido a sua alta toxicidade sobre as mesmas. Assim, os inseticidas recomendados para uso no estágio de plena-flor são  as diamidas (clorantraniliprole), aceleradores de ecdise (tebufenozida, metoxifenozida) e biológicos a base de Cydia pomonella granulovirus. A partir da queda de pétalas – final da floração (com a diminuição da presença de polinizadores) àqueles inseticidas inibidores de sintese de quitina, como lufenurom, teflubenzuron, novalurom, além dos produtos biológicos formulados com Bacillus thuringiensis já poderão ser utilizados. Todos os principios ativos acima citados atuam eficientemente na fase de lagartas (lagarticidas) (Tabela 1), e conjuntamente são recomendados para o controle de outras lagartas como a lagarta-enroladeira da maçã Bonagota salubricola (Lepidoptera: Tortricidae) e as grandes lagartas pertencentes às famílias Noctuidae e Geometridae. Além disso, sua utilização é reforçada colaborando com o manejo da resistência ao longo do ciclo e também pela não ocorrência de mosca-das-frutas no referido periodo, já que estes produtos são ineficazes para a contenção do ataque dessa praga. Assim, além das questões de biologia e desenvolvimento do inseto, deve-se também atentar a eficiência de cada inseticida para cada fase de desenvolvimento da praga. Na grade da PIM dispõe-se de uma boa quantidade de opções quanto à produtos químicos e biológicos que são registrados para o controle da grafolita, entretanto, a eficiência desses produtos normalmente é maior na fase de lagarta, restando ao produtor e/ou consultor técnico acompanhar a flutuação populacional da praga no pomar, por meio do monitoramento, a fim de determinar a real necessidade de uma pulverização, principalmente no período de floração da macieira.  De forma resumida, respondendo ao questionamento proposto, as capturas de grafolita não diminuem após a aplicação dos inseticidas durante o período de floração porque a grande maioria dos produtos que podem ser aplicados não tem uma alta eficiência sobre a mortalidade de adultos. Dessa forma, mesmo após várias aplicações, as capturas continuarão elevadas, pois a ação dos produtos estará direcionada ao controle das lagartas que estarão em continuo nascimento. Atrelado a isso, as capturas serão continuas já que os indivíduos descendentes da diapausa surgem de forma gradual, já que a entrada do perído de diapausa também é escalonada. Caso os técnicos queiram realmente efetuar controle de adultos, produtos de ação de choque, como organofosforados, etofenproxi e estrato etanólico de Sophora flavences poderão ser utilizados. Entretanto, os riscos com prejuízos a população de polinizadores pode ser grande. Assim, pensando em manejo de resistência, na segurança sobre os polinizados bem como no manejo de outras pragas, esses produtos são recomendados somente no periodo pós-floração.

 

 

Tabela 1 – Eficiência dos principais inseticidas testada em frutos em condições de laboratório, sobre diferentes estágios de desenvolimento de grafolita:

Observação: sempre consulte orientações nas bulas dos produtos.

 

Figura 1 – Detalhe da presença de uma lagarta de grafolita alojada em um burrknot através do seu excremento.

 

Figura 2 – Brotação de macieira atacada por lagarta de grafolita molesta.

Figura 3 – Dano de grafolita em frutos pequenos de macieira.

 

Sabrina Lerin

Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação FAPESC/EPAGRI São Joaquim sabrinalerin@gmail.com

José Gomes da Silva Filho

Bolsista de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação FAPESC/EPAGRI São Joaquim

Cristiano João Arioli

Entomologista EPAGRI São Joaquim

 

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