A PROTEÇÃO DAS MACIEIRAS DURANTE A QUEDA DAS FOLHAS PARA CONTROLE DA INFECÇÃO POR NEONECTRIA DITÍSSIMA, AGENTE CAUSAL DO CANCRO EUROPEU DAS POMÁCEAS
A ocorrência de cancro europeu das pomáceas no Brasil está presente nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e seu agente causal, Neonectria ditissima, é considerada praga quarentenária A1 sob controle do Ministério de Agricultura.
O agente causal do cancro europeu, o fungo Neonectria ditissima (forma imperfeita: Cylindrocarpon heteronema), possui dois tipos de esporos, os conídios e os ascósporos. Ambos os tipos de esporos têm a capacidade de infectar e formar novos cancros. Os conídios são produzidos em agrupamentos na superfície da casca ou fruto infectado. Esse tipo de agrupamento dos conídios, chamado de esporodóquio, pode ser observado a olho nu, como pontuações de coloração rósea ou creme na superfície do tecido infectado. Os conídios são dispersos pelo vento e pela chuva. Em cancros mais velhos são formados os ascósporos, os quais são bicelulares e produzidos dentro de estruturas mais ou menos esféricas, de onde são lançados. Em ambiente com umidade elevada, os ascósporos saem envoltos em substância mucilaginosa, e então são dispersos por respingos de chuva. A estrutura globosa, chamada de peritécio, geralmente não é formada no primeiro ano de infecção. Os peritécios são formados nas margens dos cancros, têm menos que 1 mm de diâmetro, são inicialmente vermelhos e depois ficam mais escuros.
As macieiras cvs. Gala e Fuji, que são predominantes no Brasil, são suscetíveis a N. ditíssima e até o presente não há variedades comerciais imunes à doença. Os danos na cultura são importantes (Figura 1), afetando a produção e, consequentemente, a produtividade da cultura. Em um dos pomares comerciais avaliados, identificado como pomar A, avaliado em 2019, em uma das quadras foram encontrados 25.600 ramos infectados em um hectare e, se considerado que cada ramo teria potencial de produzir 0,5 kg, nesse ciclo se deixou de produzir 12,8 toneladas de fruta.

A abertura natural mais importante para o início do desenvolvimento da doença é o ferimento que se forma na queda das folhas no outono. Após a queda das folhas, a planta inicia o processo de cura daquele ferimento. O período de maior suscetibilidade do ferimento varia de 1 a 7 dias. Durante essa época há inoculo disponível nas plantas (Figura 2) e chuvas frequentes com temperaturas amenas (Figura 3), assegurando a infecção.


Para proteção eficiente dessas feridas é importante definir o início da queda e o avanço semanal da mesma, assegurando maior controle da doença. Assim, se recomenda marcar pelo menos 1 ramo em seis a oito plantas de variedades e/ou vigor diferentes. Nesses ramos serão contados, semanalmente, a partir da 1ª quinzena de maio, as folhas presentes, calculada a quantidade de folhas faltantes em relação a primeira avaliação e a porcentagem de queda de folhas. As pesquisas assinalam que a proteção das feridas da queda das folhas deve ser feita com pulverizações, pelo menos, nas fases de 10, 50 e 90% da queda das folhas. Contudo, no Brasil, com a frequência alta de chuvas e o longo período de queda das folhas, seis ou sete pulverizações devem ser realizadas para garantir que o resíduo dos fungicidas esteja disponível para proteção da cicatriz da queda da folha. Estudos feitos sobre tratamentos que concentrem o período da queda de folhas para diminuir o uso de fungicidas mostraram que se deve evitar produtos que danifiquem as gemas ou tecidos vigorosos e concluíram que ABA e Etefon são os mais promissores, porque mesmo antecipando a desfolha, permitiram a translocação de nitrogênio e não causaram atrasos nos estágios fenológicos da macieira (Meyer, 2014).
Produtos recomendados para o controle do patógeno são cúpricos em doses baixas – pelo risco de fitotoxicidade – protetores sintéticos como Captan, Delan, Cloritalonil, Estrobilutinas, Fosethil Al e fosfito de potássio, além dos benzimidazóis. Este último grupo é o único que apresenta ação curativa. O fungicida citado como padrão é o captan pela sua eficiência no controle do patógeno nessa fase da cultura. Contudo, pela baixa tenacidade desse produto e pela alta frequência de chuva nessa época deve se contar com outras alternativas.
Quadro 1. Tratamentos comparados para controle de Neonectria ditissima em macieiras. Vacaria, RS.
Referências:
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Rosa Maria Valdebenito Sanhueza; Vinícius Adão Bartnicki
Centro de Pesquisa PROTERRA
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