28 abr

EQUILÍBRIO NUTRICIONAL: A BASE DA PRODUTIVIDADE E QUALIDADE EM POMARES MODERNOS DE MACIEIRAS

Princípios da nutrição de macieiras

 

A adoção adequada de práticas culturais no cultivo agrícola contribui para melhorar o desenvolvimento das plantas, otimizar o uso de recursos e aumentar a produtividade e a qualidade da produção. Condições não ideais de solo e de disponibilidade de nutrientes, tanto pelo excesso quanto pela falta, prejudicam a expressão do potencial produtivo da macieira. Dessa forma, a correção da acidez e da fertilidade do solo e as adubações de manutenção e reposição assumem papel muito importante para garantir condições adequadas para o bom desempenho desse cultivo. Essas práticas exercem influência positiva sobre o crescimento vegetativo, a produtividade, a qualidade dos frutos e a longevidade do pomar.

Ainda, em sistemas comerciais de cultivo de maçã, a nutrição equilibrada é determinante para garantir estabilidade produtiva ao longo dos ciclos, especialmente considerando que se trata de uma cultura perene, com elevada exigência fisiológica e forte alternância entre fases vegetativas e reprodutivas. Essa alternância é reflexo da competição por substâncias nutritivas entre os ramos em crescimento, os frutos em formação e as gemas que deveriam sofrer diferenciação floral, as quais por sua vez dependem da reserva nutricional das plantas.

A macieira demanda um conjunto de macro e micronutrientes, em proporções específicas, que variam conforme a idade da planta, o porta-enxerto, a cultivar copa, o sistema de condução, a densidade de plantas e as condições edafoclimáticas.

 

Entre os macronutrientes, destacam-se:

 

  • Nitrogênio (N): essencial para o crescimento vegetativo, formação de folhas e síntese de proteínas. No entanto, o excesso pode estimular crescimento vegetativo excessivo, reduzir a frutificação e aumentar a suscetibilidade a doenças. A deficiência pode causar cloroses, que se iniciam nas folhas mais velhas, com redução do crescimento das plantas, do número e do tamanho de frutos.
  • Fósforo (P): está ligado ao armazenamento e transferência de energia das plantas, sendo importante para o desenvolvimento radicular, floração e frutificação. A deficiência pode causar distúrbios fisiológicos na pós-colheita de frutos, como polpa farinácea e o escurecimento de polpa. No campo, são visíveis folhas avermelhadas ou arroxeadas na parte de baixo do dossel das plantas.
  • Potássio (K): vital para a fotossíntese e para o equilíbrio osmótico das plantas. É fundamental para a qualidade dos frutos, influenciando o tamanho, a coloração, o teor de açúcares e o potencial de armazenamento. A deficiência provoca necroses nas bordas das folhas, especialmente em folhas velhas, e a redução de cor e calibre de frutos.
  • Cálcio (Ca): relacionado ao crescimento de meristemas, é decisivo para a integridade da parede celular e das membranas, afetando especialmente a firmeza dos frutos. É um dos principais minerais associados ao potencial de armazenamento e qualidade pós-colheita dos frutos e está diretamente ligado à ocorrência de diversos distúrbios fisiológicos, tais como o bitter pit, cork spot, depressão lenticelar, polpa farinácea, dano por CO2, degenerescência da polpa e pingo de mel.
  • Magnésio (Mg): importante para a fotossíntese, uma vez que é elemento central das clorofilas, além de estar ligado ao transporte de açúcares. A deficiência é diagnosticada com a clorose entre nervuras (V) de folhas velhas, evoluindo para necrose. Como resultado, ocasiona a redução do tamanho dos frutos.

 

Já entre os micronutrientes, destacam-se:

  • Boro (B): tem papel fundamental na germinação do pólen, na formação de flores e frutos (fruit set). A deficiência é evidenciada por formação de cortiça na polpa dos frutos, com frutos menores, deformados, podendo apresentar rachaduras. Confunde-se com a deficiência de Ca, porém ocorre mais no estágio inicial do desenvolvimento de frutos.
  • Zinco (Zn): está ligado à atividade e regulação de proteínas, com implicações na formação de ramos e de flores. Os sintomas de deficiência normalmente incluem redução do tamanho de folhas e do comprimento dos entrenós, resultando em aspecto de roseta.

Amostragens de solo, tecido foliar e frutos

Amostragens corretas de solo, folhas e frutos são fundamentais para um diagnóstico confiável da fertilidade do solo e do estado nutricional das macieiras, permitindo recomendações precisas de correção e adubação dos nutrientes. Erros nessa etapa comprometem toda a interpretação dos resultados e podem levar a manejos inadequados.

A amostragem de solo deve ser realizada preferencialmente antes da implantação do pomar, e durante o período de dormência das plantas, após a implantação. A área deve ser dividida em talhões homogêneos quanto ao relevo, tipo de solo, histórico de manejo e produtividade. Em cada talhão, coletam-se de 15 a 20 subamostras distribuídas em zigue-zague, nas profundidades de 0–20 centímetros (cm) e, quando necessário, 20–40 cm. As amostras devem ser bem misturadas, retirando-se cerca de 500 gramas para envio ao laboratório.

Para a amostragem de tecido foliar, recomenda-se coletar folhas do terço médio dos ramos do ano, normalmente entre 15 de janeiro a 15 de fevereiro, período em que os teores nutricionais estão mais estáveis. Devem ser coletadas folhas sadias, sem danos de pragas ou doenças, em número de 50 a 100 folhas por talhão homogêneo. A coleta deve ser feita ao redor de toda a planta, em altura média, evitando extremos da copa. As folhas devem ser acondicionadas em sacos de papel pardo e encaminhadas rapidamente ao laboratório.

Para a amostragem de frutos, os mesmos devem ser coletados próximos à colheita, representando bem o talhão, geralmente de 10 a 20 frutos por área homogênea. Assim como nas folhas, devem ser evitados frutos com defeitos ou danos. A análise da polpa permite identificar desequilíbrios nutricionais que nem sempre são evidentes na análise foliar.

Para que as análises produzam os efeitos desejados, é necessário que as amostras acima descritas representem condições homogêneas do pomar, tais como aspectos do solo, idade das plantas, porta-enxertos e cultivares copa, densidade de plantio, entre outras práticas culturais em geral.

 

Calagem, adubação e nutrição das macieiras

 

O manejo inicia-se antes mesmo da implantação do pomar, quando por meio da análise do solo faz-se o diagnóstico da necessidade da correção da acidez e necessidade de adubação com macro e micronutrientes. Esse é o principal momento de intervenção para a correção e adubação do solo, uma vez que após a implantação, aplicações superficiais não surtirão tanto efeito quanto na sistematização e preparo em profundidade. Após a implantação do pomar, as fases de crescimento e produção necessitam de manutenção e reposição de nutrientes definidos pela análise do solo e de tecido vegetal. Estas análises são complementadas pela análise mineral dos frutos e outras características das plantas, como o vigor e o potencial produtivo.

Com base nos laudos das análises químicas do solo, são recomendadas quantidades de calcário necessárias para atingir o pH ideal de crescimento e desenvolvimento das plantas, bem como as quantidades de P e K para atingirem os níveis crítico e faixas de suficiência desses elementos para as plantas. Na calagem, também são corrigidos os teores de Ca e Mg do solo. Ainda na implantação do pomar, o pomicultor tem a oportunidade de corrigir os níveis de B e Zn. Nessa fase, práticas como a subsolagem, a aração e a gradagem são fundamentais para uma boa sistematização da área a receber o pomar, permitindo uma boa distribuição dos corretivos e fertilizantes ao longo do perfil do solo.

Na fase de crescimento, o manejo nutricional deve objetivar a formação das plantas, da instalação do pomar até o início da estabilidade de produção (1º ao 3º ano de cultivo). Nessa fase, normalmente, o nutriente mais preconizado e associado à estruturação do dossel vegetativo adequado é o N. A análise foliar é o instrumento mais adequado para o acompanhamento do crescimento das plantas e indicará a quantidade de N a ser adicionada. Além disso, deve ser considerado o tipo de porta-enxerto e a densidade de plantio. A adubação nitrogenada deverá ser parcelada, preferencialmente, em quatro etapas após a brotação. Essa análise pode revelar ainda a necessidade de outros nutrientes, muito embora o N seja aquele de maior necessidade nessa fase. A adubação deve ser realizada na área abrangida pela projeção da copa das plantas, ao longo da fila de plantio.

Na fase de produção, devemos manter a fertilidade do solo definida na ocasião da implantação do pomar, além de realizar a reposição dos nutrientes exportados na colheita e perdidos em processos no solo. As análises de solo, tecido foliar e de frutos são essenciais para definir os nutrientes e as quantidades a serem aplicadas. Devem ser ainda levados em consideração a idade das plantas, as produtividades anteriores, o vigor de plantas e o sistema de condução. Nessa fase, é possível a manutenção de todos os nutrientes necessários pelas plantas, embora haja certa limitação no efeito de alguns adubos.

Para N, P e K, requeridos em maiores quantidades, a adubação deve ser realizada via solo. Quanto ao N, são consideradas questões como a concentração nas folhas, produtividade esperada e vigor do porta-enxerto, bem como se o pomar possui cobertura de tela anti-granizo. Há de se considerar ainda qual é a fonte de N utilizada, qual a cobertura do solo que a área apresenta e qual o tipo de solo. Da mesma forma que na fase de crescimento, na fase de produção as quantidades a serem aplicadas devem ser parceladas a partir da brotação. Embora haja ausência de estudos relatando a resposta da adubação fosfatada na produtividade e qualidade de frutos de macieira, é recomendada a suplementação do P na fase de produção, quando os níveis no solo e tecidos vegetais estiverem abaixo do normal, e preferencialmente no período vegetativo das plantas. Para o K, nutriente mais extraído pelos frutos da macieira, as quantidades são recomendadas de acordo com as análises de solo, análise foliar e produtividade esperada. Para este nutriente, a aplicação deve ser parcelada, depois da brotação até a pré-colheita.

Outros nutrientes, como o Ca, B, Zn e Mg devem também ser suplementados na fase de produção, todavia podem ser aplicados via foliar. Para o Ca, é recomendado que sejam feitas aplicações quinzenais  (de 8 a 12 pulverizações) , com cloreto ou nitrato de Ca, a partir do final de outubro. O B deve ser aplicado durante a floração, para aumento do fruit set, ou ainda em pré-colheita, caso seja desejado antecipar a maturação de frutos. Mg e Zn devem ser aplicados quando deficiências nutricionais forem detectadas, ou quando análises de tecido vegetal apontarem valores abaixo da suficiência, com o suprimento recomendado por meio de duas pulverizações, uma em setembro e outra em fevereiro.

 

Considerações finais

 

De forma geral, o equilíbrio nutricional de macieiras depende de um conjunto integrado de práticas que se iniciam no correto diagnóstico das condições do solo e do estado nutricional das plantas. A utilização conjunta das análises de solo, folhas e frutos permite uma visão mais completa do sistema produtivo, possibilitando identificar tanto limitações químicas do solo quanto desequilíbrios nutricionais ao longo do ciclo da cultura. Nesse contexto, a representatividade das amostras e a padronização dos procedimentos de coleta são determinantes para a confiabilidade dos resultados e, consequentemente, para a eficiência das recomendações de calagem e adubação.

Além disso, o manejo nutricional deve ser contínuo e ajustado conforme a fase de desenvolvimento do pomar, levando em consideração fatores como produtividade, vigor das plantas, características do sistema de cultivo e condições ambientais. A adoção de estratégias de adubação baseadas em critérios técnicos contribui não apenas para o aumento da produtividade, mas também para a melhoria da qualidade dos frutos e a sustentabilidade do sistema de produção, garantindo maior longevidade ao pomar e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.

 

 

Eduardo da Silva Daniel1; Mariuccia Schlichting De Martin2; Matheus Luís Docema3

1Pesquisador de Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas; 2Pesquisadora de Fisiologia Vegetal; 3Pesquisador de Fitotecnia

Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI)

Estação Experimental de São Joaquim (EESJ)

 

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