05 maio

Entre o clima e o solo: como a produção de maçãs pode ajudar a mitigar as mudanças climáticas

Pesquisa inédita em Santa Catarina investiga o papel dos pomares de macieiras no sequestro de carbono orgânico do solo e na sustentabilidade agrícola

As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção distante para se tornarem uma realidade cada vez mais presente no campo. Eventos extremos, como períodos prolongados de estiagem, chuvas intensas e variações térmicas acentuadas, já impactam diretamente a produção agrícola e impõem novos desafios aos produtores rurais.

Nesse cenário, a agricultura passa por uma transformação importante: além de produzir alimentos, ela é chamada a desempenhar um novo papel, o de contribuir ativamente para a mitigação dos efeitos do aquecimento global.

Práticas conservacionistas como o uso de plantas de cobertura, diversificação de culturas, manutenção de resíduos culturais e o mínimo revolvimento do solo são estratégias fundamentais para mitigar esses impactos.

É nesse contexto que o solo, muitas vezes visto apenas como suporte do crescimento vegetal, ganha protagonismo como regulador de processos ecológicos fundamentais. O solo como reservatório de carbono na agricultura e indicador de sustentabilidade

Pouco perceptível à primeira vista, o solo é um dos sistemas mais complexos e estratégicos do planeta. Ele abriga uma imensa diversidade de organismos, regula o ciclo da água, sustenta a produção de alimentos e, sobretudo, atua como um dos maiores reservatórios (sumidouros) de carbono da Terra.

Grande parte desse carbono está armazenada na forma de matéria orgânica do solo (MOS), resultado da decomposição de resíduos vegetais e da atividade biológica.

Você sabia? O solo pode armazenar até três vezes mais carbono do que a atmosfera, o que o torna peça-chave no combate às mudanças climáticas.

Quando bem manejado, o solo atua como um verdadeiro “cofre”, armazenando carbono que, de outra forma, estaria na atmosfera na forma de gás carbônico (CO₂), também conhecido como dióxido de carbono, um dos principais gases associados ao efeito estufa (GEE).

Esse processo é chamado de sequestro de carbono, e ocorre quando plantas capturam CO₂ da atmosfera, via fotossíntese, e o transferem para a biomassa vegetal e para o solo por meio de raízes, folhas, resíduos vegetais e outras fontes orgânicas, que passam a compor a MOS. Já o estoque de carbono no solo representa a quantidade acumulada desse carbono ao longo do tempo, sendo um dos principais indicadores da saúde do solo e da sustentabilidade dos sistemas agrícolas.

Entretanto, a capacidade dos solos em sequestrar carbono depende de diversos fatores ambientais, incluindo clima, textura do solo e práticas de manejo agrícola. Solos ricos em carbono não apenas contribuem para o equilíbrio climático, mas também: melhoram a fertilidade natural; aumentam a retenção de água (macro e micro porosidade); reduzem riscos de erosão; favorecem a atividade biológica e incrementam a produtividade agrícola.

Ou seja, conservar carbono no solo é, ao mesmo tempo, uma estratégia ambiental e produtiva.

A fruticultura e o sequestro de carbono

Apesar dos avanços no entendimento do papel do solo em sistemas agrícolas como lavouras anuais e pastagens, ainda há lacunas importantes quando se trata de culturas perenes, como pomares de macieira.

Em Santa Catarina, responsável por mais da metade da produção nacional de maçãs, os pomares ocupam áreas extensas e têm grande relevância econômica e social. Ainda assim, pouco se sabe sobre como esses sistemas contribuem ou podem contribuir para o armazenamento de carbono orgânico do solo. É justamente essa lacuna que o projeto busca preencher, sendo considerado inédito para a fruticultura brasileira.

Diante desta necessidade, nosso projeto de pesquisa está sendo desenvolvido no município de São Joaquim (SC), na região do Planalto Sul Catarinense, que propõe uma abordagem inovadora: investigar como diferentes formas de manejo em pomares de macieira influenciam o armazenamento de carbono orgânico no solo, um processo essencial para reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

A proposta é clara: produzir com mais eficiência e, ao mesmo tempo, entender quais práticas favorecem o acúmulo de carbono e melhoram a saúde do solo, contribuindo para um modelo de agricultura mais sustentável.

Com execução prevista entre 2026 e 2027, o estudo está sendo conduzido em três áreas comerciais no município de São Joaquim (SC), permitindo que os resultados reflitam diretamente a realidade dos produtores.

A pesquisa analisa diferentes cenários de uso e manejo do solo, incluindo:

  • Pomares de macieiras em alta densidade (2.380 plantas ha-1) e baixa densidade (500 plantas ha-1) de plantio;
  • Áreas de replantio (pomares de macieiras de ≈20 anos) e áreas recém-estabelecidas (pomares de ≈5 anos);
  • Sistemas com e sem cobertura vegetal nas linhas de plantio;
  • Comparação com diferentes sistemas (usos da terra), como áreas de pastagens e vegetação nativa (Mata de Araucárias).

Assim, essas comparações entre diferentes sistemas de condução de macieiras e densidades de plantio permitirão identificar variações relevantes nos estoques de carbono do solo, contribuindo para o desenvolvimento de práticas agrícolas mais sustentáveis e alinhadas às políticas de mitigação das mudanças climáticas.

Para isso, o solo é avaliado de forma integrada, considerando três indicadores fundamentais: Químico: relacionado à fertilidade e disponibilidade de nutrientes;
Físico: ligado à estrutura, compactação e retenção de água;
Biológico: que envolve a atividade enzimática de microrganismos, além dos teores de carbono orgânico e nitrogênio no solo.

A partir desses indicadores será desenvolvido um Índice de Saúde do Solo (ISS), capaz de sintetizar a qualidade do solo nesses diferentes sistemas de produção.

A amostragem está sendo realizada por meio da abertura de cinco trincheiras em cada uso do solo em cada área pré-selecionada, com coletas em camadas até 0,3 m de profundidade (0–0,1; 0,1–0,2; 0,2–0,3 m).

Figura 1. Área de coleta de solo para quantificação de carbono orgânico em pomar de macieira com baixa densidade de plantio (500 plantas ha-1), em São Joaquim – SC.

 

Figura 2. Área de coleta de solo para quantificação de carbono orgânico em pomar de macieira com alta densidade de plantio (2.380 plantas ha-1), em São Joaquim – SC.

 

Figura 3. Área de coleta de solo para quantificação de carbono orgânico em diferentes usos da terra (sistemas agrícolas, pastagem e floresta nativa), em São Joaquim – SC.

 

Produção e sustentabilidade lado a lado

Além das análises de solo, o estudo também avaliará o desempenho produtivo dos pomares, considerando variáveis como produtividade, eficiência produtiva e vigor das plantas. Essa integração é essencial, pois permite responder a uma questão central para o futuro da agricultura: é possível adotar práticas mais sustentáveis sem comprometer a produção?

A expectativa é que os resultados demonstrem que sistemas com maior estoque de carbono orgânico no solo também apresentem maior estabilidade produtiva e resiliência frente às variações climáticas.

Impactos para a cadeia produtiva

Os avanços gerados pela pesquisa podem trazer benefícios diretos para a cadeia produtiva da maçã:

Manejo mais eficiente e produção sustentável

A identificação de boas práticas pode orientar produtores a adotar manejos que conservam o solo e aumentam o carbono armazenado.

Maior resiliência climática

Solos mais saudáveis e ricos em matéria orgânica tendem a suportar melhor condições adversas, como estiagens e chuvas intensas.

Novas oportunidades econômicas

A mensuração do carbono no solo pode abrir caminho para a inserção da fruticultura, em especial a cultura da macieira, em programas de créditos de carbono e pagamento por serviços ambientais, permitindo que produtores sejam remunerados por práticas sustentáveis.

Um estudo inédito para o setor

O caráter inovador do projeto está na combinação de fatores ainda pouco explorados em conjunto:

  • Avaliação detalhada do COS em sistemas frutícolas;
  • Desenvolvimento de índice regional de saúde do solo;
  • Aplicação direta em propriedades comerciais;
  • Foco em uma cultura de alta relevância econômica.

Com isso, a pesquisa contribuirá para preencher lacunas científicas e fortalecer a base técnica da fruticultura sustentável no Brasil.

Agricultura e clima: caminhos convergentes

O estudo também dialoga com iniciativas nacionais e internacionais voltadas à redução de emissões e à promoção da agricultura de baixo carbono, como o Plano ABC+ e os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

Mais do que uma tendência, essa integração entre produção agrícola e conservação ambiental se torna uma necessidade diante dos desafios globais.

Um novo olhar sobre o campo

Ao investigar o papel dos pomares no armazenamento de carbono, a pesquisa reforça uma mudança de perspectiva: o solo deixa de ser apenas base da produção e passa a ser um elemento central na solução de problemas globais.

No caso da maçã catarinense, isso significa que cada safra pode representar não apenas alimento e renda, mas também um passo em direção a uma agricultura mais equilibrada e alinhada com o futuro do planeta.

 

Matheus Luís Docema, Pesquisador em Fitotecnia da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI (Estação Experimental de São Joaquim).

 

Eduardo da Silva Daniel, Pesquisador em Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina – EPAGRI (Estação Experimental de São Joaquim).

 

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